Brasil, IA e audiovisual: como o país se tornou protagonista da transformação criativa na América Latina

Brasil, IA e audiovisual: como o país se tornou protagonista da transformação criativa na América Latina

Brasil, IA e audiovisual: como o país se tornou protagonista da transformação criativa na América Latina

19 de jan. de 2026

Human Picks

Staff

Quando relatórios internacionais começam a apontar o Brasil como líder regional em adoção de inteligência artificial, a leitura mais óbvia é econômica. Números, porcentagens, rankings. Mas existe um movimento menos evidente acontecendo em paralelo e muito mais relevante para o futuro criativo do país: o audiovisual brasileiro deixou de apenas acompanhar a transformação digital para se tornar um dos seus protagonistas.

Não por acaso, o estudo da Linux Foundation em parceria com a Meta mostra que o país concentra 46% das organizações latino-americanas que utilizam IA open source e 74% das startups de IA da região. Esses dados ganham outra dimensão quando colocados ao lado da força do audiovisual nacional, responsável por movimentar R$70,2 bilhões do PIB em 2024 e gerar mais de 608 mil empregos diretos e indiretos.

Nesse encontro entre criatividade e tecnologia, a IA deixou de ser promessa e virou ferramenta de trabalho. Em pouco tempo, ela começou a redesenhar fluxos, decisões e modelos de produção em um dos setores mais estratégicos da economia brasileira.

A pergunta central, hoje, não é se essa transformação vai acontecer. Ela já está em curso. O que importa é entender por que o Brasil ocupa essa posição e o que isso revela sobre o futuro da produção audiovisual latino-americana e global.

Por que o Brasil lidera IA na América Latina (e não é só porque tem mais gente)

Os números do relatório da Linux Foundation revelam um cenário mais distribuído do que um simples ranking sugere. No índice agregado de adoção e capacidade de IA, o México aparece um pouco à frente do Brasil, com 94,56 pontos contra 90,27. Argentina (73,36) e Chile (72,66) vêm na sequência. O índice de capacidade técnica do Brasil (65,89) também fica abaixo da média de regiões desenvolvidas, e o país investe US$8,2 bilhões em IA generativa, quando deveria atrair cerca de US$12,5 bilhões, considerando sua participação de 6,6% no PIB global.

O paradoxo é que essa limitação virou combustível.

O protagonismo brasileiro aparece quando o foco sai do valor técnico bruto e se volta para a aplicação prática e o impacto econômico. O Brasil concentra 74% das startups de IA da América Latina, lidera a adoção de modelos open source e é o país onde mais organizações já relatam ganhos reais com o uso de inteligência artificial.

Sem acesso fácil a grandes orçamentos, a indústria audiovisual brasileira foi forçada a inovar com menos e encontrou na IA de código aberto a resposta: ferramentas de nível global, custo reduzido e alta capacidade de adaptação.

Enquanto outros países ainda discutem estratégias, o Brasil testa, ajusta e coloca em produção. No audiovisual, isso faz toda a diferença.

O setor reúne volume de produção (212 filmes nacionais lançados em 2024, contra 355 internacionais), infraestrutura em expansão (3.509 salas de cinema em funcionamento) e uma indústria com retorno econômico comprovado. Segundo a Oxford Economics, a cada R$10 milhões produzidos pelo audiovisual, outros R$12 milhões são movimentados em diferentes setores da economia. 

Esse conjunto cria o ambiente ideal para experimentação tecnológica em escala.

A bilheteria dos filmes brasileiros cresceu 197% entre maio de 2024 e maio de 2025, o melhor resultado desde o início da pandemia. Cinco produções nacionais superaram a marca de 1 milhão de espectadores em 2024, algo inédito desde 2019. “Ainda Estou Aqui” ultrapassou 5,8 milhões de espectadores e venceu o Oscar de melhor filme internacional. Em janeiro de 2026, “O Agente Secreto”, produção brasileira da CinemaScópio, fez história ao vencer duas categorias no Globo de Ouro.

Não, essas duas grandes produções não foram criadas com IA, mas ajudam a pavimentar o caminho da produção audiovisual nacional, que passa, inevitavelmente, pela incorporação de inteligência artificial. O reconhecimento internacional recente nasce de uma base sólida de narrativa, técnica e linguagem construída ao longo de décadas. Nesse cenário, a inteligência artificial surge como amplificadora de qualidades já existentes, não como meio de produção automática.

Quando gigantes da TV abraçam IA (e o que isso diz sobre o mercado)

O audiovisual brasileiro já não está experimentando IA apenas em startups ou produtoras independentes. Grandes emissoras do país já incorporaram a tecnologia em seus processos, com casos que vão do estratégico ao simbólico, sinalizando que a transformação deixou de ser tendência para virar prática.

A Globo, maior emissora da América Latina, utiliza IA em diferentes frentes, do entretenimento ao jornalismo. Em janeiro de 2026, a abertura da novela Coração Acelerado foi criada com inteligência artificial, marcando um momento inédito na teledramaturgia brasileira e provocando reações do público. Parte da audiência elogiou a inovação, enquanto outra demonstrou estranhamento.

Além disso, a emissora utiliza IA para localização automática de takes, legendagem em tempo real, análise de sentimento da audiência, aprimoramento de efeitos visuais em transmissões ao vivo, dublagens e ilustrações.

No Big Brother Brasil de 2024 e 2025, por exemplo, a inteligência artificial passou a integrar a transmissão do reality, com recursos de personalização de conteúdo e leitura de padrões de comportamento dos participantes. A edição utilizou ferramentas de geração de vídeo e congelamento de imagem para criar ações de ativação em tempo real a partir de momentos-chave do programa.

Para 2026, o uso deve ser ampliado. Segundo a emissora, imagens captadas por uma câmera exclusiva poderão ser processadas com apoio de inteligência artificial, sempre sob supervisão humana, para sugerir enquadramentos, gerar informações e oferecer contexto sobre o que acontece no programa.

Como resume Hugo Barreto, diretor de tecnologia da Globo: “A IA já está no audiovisual, mas o protagonismo é da criatividade humana, sem barreiras.”

A frase explica bem uma abordagem que vem se consolidando no setor: a tecnologia como ferramenta de apoio estratégico, não como substituta do criativo. Ainda que o discurso ressalte ganhos de eficiência, o uso da IA também expõe um campo de experimentação que envolve riscos, ajustes e diálogo constante com a audiência.

Até emissoras historicamente mais conservadoras passaram a abraçar a IA. O SBT utilizou inteligência artificial em ações de apelo mais simbólico. No lançamento do SBT News, em 2025, a emissora recriou digitalmente Silvio Santos para apresentar o novo canal.

No especial de Natal de 2025 de A Praça é Nossa, a IA reuniu virtualmente Carlos Alberto de Nóbrega e seu pai, Manoel da Nóbrega, falecido em 1976. 

Como qualquer inovação cultural de grande escala, o uso da IA gera debates. Ainda assim, o movimento é claro: quando emissoras que alcançam milhões de brasileiros diariamente incorporam IA, não estão apenas testando tecnologia, estão sinalizando uma aposta estratégica e ajudando a definir novos padrões de produção para toda a indústria.

Audiovisual e IA no Brasil: por que essa combinação funciona tão bem

O audiovisual sempre foi um setor de convergência tecnológica. Da câmera analógica para a digital, do VHS para o streaming, cada avanço redefiniu não apenas como produzimos, mas o que podemos produzir. A inteligência artificial segue essa lógica, com uma diferença crucial: a escala da transformação é inédita.

Falando do Brasil, três fatores ajudam a explicar por que o audiovisual se tornou um dos principais campos de aplicação da IA no país:

Volume e complexidade de produção

Em 2025, o audiovisual brasileiro atingiu um novo patamar de escala. Apenas no primeiro semestre, o setor movimentou R$11,93 bilhões em investimentos publicitários, crescimento de 12,5% em relação a 2024, segundo o Painel Cenp-Meios.

Esse avanço se apoia em um ciclo de expansão. Em 2024, foram 3.831 obras audiovisuais finalizadas, enquanto os pedidos de Reconhecimento Provisório de Coprodução Internacional mais que dobraram em dois anos, passando de 56 registros em 2023 para 140 solicitações em 2025, de acordo com dados da Ancine.

A escala de produção acompanha esse movimento. Em 2024, o Rio de Janeiro liderou com 8.782 diárias de filmagem, seguido por São Paulo, com 5.098 autorizações, superando polos tradicionais como Paris e Cidade do México. Nesse contexto, produtoras como a O2 Filmes criaram selos dedicados à integração de inteligência artificial. A BOT, por exemplo, utiliza IA em diferentes etapas da produção, da criação de personagens à trilha sonora.

Um dos projetos da Bot é o curta-metragem The Brave Little Hen (ou How a Fox Became a Father), que conta a história de uma raposa que se vê no papel de pai de uma galinha. A peça foi dirigida e roteirizada por talentos da BOT com o auxílio de IA.

Custos, open source e democratização 

Outro fator decisivo é econômico. Segundo o relatório da Linux Foundation, ferramentas de IA open source podem reduzir custos em até cinco a sete vezes quando comparadas a soluções proprietárias. Em termos simples, open source são tecnologias com código aberto, que podem ser adaptadas, combinadas e usadas sem licenças caras ou dependência de um único fornecedor. 

Em uma indústria onde 99,5% das empresas são pequenas e médias, e onde R$800 milhões foram aprovados para o Fundo Setorial do Audiovisual em 2024, cada real economizado em pós-produção pode ser reinvestido em roteiro, direção ou distribuição.

Velocidade e capacidade de experimentação

A terceira vantagem está no tempo. A IA permite que a pós-produção aconteça simultaneamente às filmagens, ou até antes. Produtoras brasileiras estão integrando motion design, VFX e correção de cor com IA, reduzindo cronogramas de meses para semanas. 

Em um mercado onde 62% das empresas brasileiras já investem em treinamento em IA, a velocidade de iteração virou vantagem competitiva.

Leia também: O futuro dos efeitos visuais: VFX com inteligência artificial

O que a IA já está mudando no audiovisual 

A transformação não é mais promessa de futuro. É o agora. Casos reais mostram como a IA está redesenhando o audiovisual brasileiro em tempo real.

Pré-produção: dos roteiros aos storyboards

Ferramentas de IA permitem criar storyboards completos a partir de descrições textuais, testar diferentes enquadramentos e composições visuais antes mesmo de montar a equipe. Diretores relatam que o uso de ferramentas como LTX, Midjourney e Runway facilita a validação de conceitos com clientes e equipes, tornando o planejamento visual mais ágil.

Leia também: Direção de arte com IA: como o LTX transforma storyboards em narrativas visuais consistentes

Produção: iluminação, enquadramento e tomadas múltiplas

Sistemas de IA analisam em tempo real qualidade de áudio, foco e iluminação durante as filmagens, alertando equipes e diretores sobre problemas técnicos que poderiam passar despercebidos.

Segundo Marcelo Müller, professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA-USP, a IA facilita processos mecânicos e repetitivos, potencializando habilidades dos profissionais como uma extensão do pensamento humano: 

“É muito importante destacar que, independente de ser visível ou não na obra que será apresentada ao público, o uso das ferramentas dotadas de IA traz novas possibilidades para os processos de realização artística.”

Pós-produção: onde a revolução já chegou

É aqui que a IA mais impacta. Correção de cor automatizada, remoção de objetos indesejados, estabilização de imagem, upscaling, restauração de áudio, geração de legendas em múltiplos idiomas, tudo isso que consumia dias de trabalho manual agora leva horas. Conforme debatido em artigos e painéis técnicos da SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão), a automação dessas etapas projeta ganhos de eficiência que variam de 30% a 50% no cronograma da pós-produção.

Acessibilidade, distribuição e personalização

A tecnologia também está democratizando o acesso. A IA pode ser um caminho para um audiovisual mais inclusivo, oferecendo audiodescrição automática, tradução, legendas personalizadas e recursos de tradução em tempo real para pessoas surdas e com deficiência auditiva.

Plataformas brasileiras de streaming já usam IA para gerar trailers personalizados baseados no perfil do espectador, criar thumbnails otimizados por região e até adaptar cortes de filmes para diferentes formatos (cinema, TV, mobile). 

O Panorama do Mercado de Vídeo por Demanda da ANCINE aponta que 106 plataformas de VoD operam no Brasil, demonstrando um mercado cada vez mais competitivo onde a personalização se torna diferencial estratégico. De acordo com a PwC, a aplicação de IA em operações corporativas já demonstra melhorias de 20% a 30% na produtividade, tendência que começa a se refletir também no setor audiovisual com algoritmos de recomendação mais precisos e experiências cada vez mais personalizadas para o espectador brasileiro.

Publicidade brasileira na vanguarda da IA

Se o audiovisual brasileiro como um todo abraçou a IA, a publicidade nacional está na linha de frente. E não são apenas experimentos: são campanhas de grandes marcas que geram impacto real.

Em julho de 2025, o Burger King Brasil lançou a campanha "Nada de Artificial", criada pela AlmapBBDO, com a personagem IAra, uma senhora criada inteiramente com IA usando a tecnologia Google Veo 3 Pro. A campanha faz parte de uma série de filmes que brincam com situações surreais geradas por IA para promover a oferta "King em Dobro", mesclando humor e tecnologia.

No Carnaval de 2025, a campanha Sonhe com o Carnaval, dirigida por Rod Cauhi e produzida pela Daydream Studio para o camarote Alma Rio, mostrou como a IA já faz parte do repertório criativo do audiovisual brasileiro. Com narração de Marcelo D2, o filme, inteiramente criado com inteligência artificial, buscou traduzir a atmosfera do Carnaval carioca como um convite sensorial à celebração.

Premiado em festivais como o Rio Art Innovation Fair & Festival (RAIFF 25) e o NeuroMasters AI Festival 2025, em Moscou, Cauhi vê esse momento como um ponto de virada para o setor: “Estamos vivendo a maior democratização do audiovisual. A técnica tende a sair do centro, e quem se destaca é quem consegue criar melhor.”

Em setembro de 2025, a Nivea lançou o comercial "O clássico evoluiu", com a apresentadora Eliana encontrando versões de si mesma em diferentes fases da vida. Criado pela Publicis Brasil, o filme utiliza IA para recriar a Eliana de diferentes décadas, tocando em temas universais como família, memória e identidade. A campanha viralizou nas redes sociais e gerou forte engajamento emocional, provando que tecnologia e emoção não são excludentes quando há intenção criativa verdadeira por trás.

Leia também: 6 exemplos de campanhas nacionais feitas com IA que você precisa conhecer

Música, clipes e novos formatos audiovisuais criados com IA no Brasil

A IA no audiovisual brasileiro não se limita a cinema, TV e publicidade. A música brasileira também está sendo transformada pela tecnologia, especialmente em videoclipes e formatos experimentais.

O fenômeno do "funk vintage", músicas criadas com IA que viralizaram nas redes sociais em 2025, mostrou como a tecnologia pode dar origem a novos subgêneros e estéticas. Apesar de gerar controvérsia, o movimento revelou o interesse do público brasileiro por experimentação sonora e visual. O que começou como uma brincadeira hoje já registra números expressivos em plataformas de streaming como Apple Music e Spotify, onde a produtora de funks com IA Blow Records foi verificada e alcança 1,8 milhão de ouvintes mensais.

Em outro espectro, trabalhos como o clipe "Mouth" do duo Superafim em parceria com Duda Beat, dirigido por Vinicius Almeida para a banda, utilizou IA para criar universos em uma narrativa visual que mistura moda, performance e identidade artística.

Esse é um ponto crucial: a IA não substitui a visão do diretor e do artista. Ela a amplifica e transforma. Quando um cineasta domina a linguagem visual e entende exatamente o que quer comunicar, a IA se torna ferramenta de expressão, não muleta criativa.

Leia também: Como bons diretores de arte estão expandindo o repertório criativo com IA

AI Creative Festival: celebrando a criatividade ampliada pela Inteligência Artificial

Em 2025, a Human realizou a primeira edição do AI Creative Festival, celebrando exclusivamente produções audiovisuais criadas com inteligência artificial. Enquanto eventos tradicionais ainda debatiam a presença da IA nas competições criativas, uma nova geração de criadores já produzia obras impressionantes e faltava um espaço para reconhecimento.

Foram mais de 1000 inscrições, de animações experimentais a videoclipes e curtas-metragens. O que uniu todas as obras foi a intenção: usar a IA para expressar ideias que de outra forma não seriam possíveis. O festival mostrou que o Brasil não está apenas consumindo, mas criando cultura com ela, apoiada em curadoria, contexto e comunidade.

Leia também: AI Creative Festival 2025: confira como foi a primeira edição da premiação que celebra criatividade humana potencializada com IA

A vantagem competitiva: como o código aberto impulsiona IA no Brasil

O avanço da inteligência artificial no Brasil passa, cada vez mais, pelo código aberto. Segundo a Linux Foundation, 46% das organizações brasileiras já usam modelos de IA open source de forma regular. Na prática, isso significa um ecossistema ativo, com produtoras e desenvolvedores contribuindo para projetos globais como o Llama, da Meta, criando modelos voltados ao português, como o Sabiá-3, e compartilhando soluções em repositórios públicos.

Esse movimento já coloca o Brasil entre os protagonistas. O país é hoje o quarto maior contribuidor em projetos de IA generativa no GitHub, com mais de 50 mil contribuições entre 2012 e 2023. Mais do que um número, isso gera um efeito direto: quanto mais o mercado brasileiro contribui, melhores os modelos ficam para o nosso contexto, seja em idioma, referências culturais ou demandas técnicas do audiovisual.

O open source também traz ganhos práticos. Ele permite treinar, ajustar e hospedar modelos internamente, aumentando o controle sobre dados e reduzindo a dependência de fornecedores. Além disso, acelera a inovação. Com menos amarras, empresas conseguem personalizar soluções e evoluir no ritmo que o negócio exige, algo essencial para uma indústria dinâmica e de grande escala como a audiovisual.

Nesse cenário, o código aberto deixa de ser apenas uma escolha técnica e se consolida como estratégia de negócio. A tendência é um modelo híbrido, em que soluções open source e proprietárias convivem, ampliando a competitividade e a capacidade de criação no mercado brasileiro.

Os desafios da adoção de IA no audiovisual brasileiro

O debate sobre IA no audiovisual brasileiro costuma começar pelo que ela promete: mais velocidade, menos custo e mais escala. O problema é que a conversa quase nunca avança para o que sustenta essa transformação no mundo real. Formação profissional, regulação, infraestrutura e critérios de qualidade seguem como pontos frágeis, enquanto o discurso de inovação segue em frente.

O gap de habilidades

O relatório da Linux Foundation é claro: 77% dos profissionais latino-americanos relatam falta de treinamento em IA generativa por parte dos empregadores, 13 pontos percentuais acima da média global. No Brasil especificamente, apenas 12.000 profissionais possuem habilidades avançadas em IA e machine learning. Para um setor que emprega mais de 608 mil pessoas, é insuficiente.

Universidades e centros de pesquisa brasileiros ampliaram parcerias com big techs em 2025 para acelerar a formação de talentos, mas o déficit crescente de profissionais qualificados ainda assombra a indústria. 84% dos empregadores brasileiros planejam investir em upskilling de suas equipes, mas muitos não sabem nem por onde começar.

Direitos autorais e regulação

O Senado aprovou em dezembro de 2024 o marco regulatório da IA no Brasil, prevendo proteção dos direitos de criadores e exigindo identificação de conteúdos de IA. Mas a lei ainda precisa passar pela Câmara, e enquanto isso, produtoras operam em zona cinzenta jurídica. Quem detém os direitos de uma imagem gerada por IA treinada em obras de terceiros? Como garantir remuneração justa para artistas cujo trabalho alimenta modelos de IA? Essas perguntas não têm resposta clara, e o audiovisual brasileiro avança mesmo sem elas.

Dependência tecnológica 

Apesar da contribuição brasileira para IA open source, a maior parte da infraestrutura computacional de alto desempenho está fora do país. Treinar modelos grandes exige GPUs e datacenters que o Brasil ainda não tem em escala. Mesmo modelos como o Sabiá-3, desenvolvido por brasileiros, dependem de nuvens estrangeiras para rodar. Isso cria vulnerabilidade geopolítica e econômica.

Qualidade x quantidade

Existe um risco real de que a facilidade de produzir com IA leve a uma inundação de conteúdo medíocre. Quando qualquer um pode gerar um vídeo em minutos, o que diferencia um trabalho excepcional de um apenas aceitável? 

Como o professor Marcelo Müller da USP alerta, o uso acelerado e fragmentado de IA pode reduzir a profundidade narrativa e dificultar histórias que promovam reflexão crítica. A indústria precisa encontrar equilíbrio entre eficiência e substância.

O humano no centro: IA como amplificadora da criatividade

Em meio ao avanço da IA no audiovisual, vale reforçar um ponto básico que às vezes se perde no caminho: a IA não cria nada sozinha. Ela amplia a criatividade humana.

No audiovisual, tudo é feito por pessoas e para pessoas. A IA pode gerar imagens, sons e movimentos, mas não cria intenção, significado, verdade ou responsabilidade. Isso nasce do olhar humano.

Quando emissoras usam IA para homenagear ícones do passado, a tecnologia é apenas o meio. O timing emocional, a leitura cultural e o sentido daquele gesto para o público continuam sendo escolhas humanas. O mesmo vale quando marcas como o Burger King criam personagens com IA: alguém define personalidade, valores e tom de voz. A IA executa, mas não decide.

O maior risco da revolução da IA não é a substituição de profissionais, mas o momento em que pessoas deixam de assumir decisões que pedem sensibilidade cultural, responsabilidade social e critério humano, transferindo esse peso para sistemas que não entendem contexto, consequência ou impacto.

Se o audiovisual brasileiro lidera a adoção de IA na América Latina, não é por usar mais tecnologia, mas por usá-la com intenção, a serviço de histórias que importam, sem confundir ferramenta com propósito.

O que separa quem lidera IA de quem apenas usa

A diferença entre o Brasil e outros países latino-americanos na adoção de IA não está apenas na quantidade de ferramentas em uso, mas na forma como elas entram no processo produtivo.

Países que se limitam a consumir IA seguem dependentes de tecnologias desenvolvidas fora, pagam licenças altas e operam dentro de limites definidos por outros. Já aqueles que contribuem para o open source, desenvolvem modelos próprios e formam talentos locais constroem valor no longo prazo e fortalecem sua autonomia tecnológica.

O Brasil vem seguindo esse segundo caminho, ainda que nem sempre de forma consciente. E o audiovisual aparece como uma das frentes mais avançadas desse movimento.

Hoje, 95% das empresas brasileiras de médio e grande porte que adotam IA relatam retorno positivo ou equilíbrio, acima da média global de 80%. No audiovisual, cada R$10 produzidos movimentam outros R$12 em diferentes áreas da economia. Com a IA integrada ao processo, esse efeito pode dobrar.

Produtoras que incorporam IA reduzem custos operacionais entre 30% e 40%, aceleram a produção em até 60% e ampliam de forma significativa sua capacidade de testar ideias. Não por acaso, 62% das empresas audiovisuais brasileiras já investem em capacitação em IA, o maior índice da América Latina.

Ainda assim, a liderança não se sustenta apenas com tecnologia. Ela depende de direção clara, escolhas consistentes e visão de longo prazo. E é justamente aí que o Brasil ainda tem espaço para avançar.

Dois movimentos estratégicos para consolidar a liderança do Brasil em IA no audiovisual

O relatório da Linux Foundation projeta que o mercado de IA na América Latina crescerá 28,1% ao ano, passando de US$12,7 bilhões em 2024 para US$193,6 bilhões em 2035. Esse crescimento, no entanto, não acontecerá do mesmo jeito para todos os países. Quem investir desde já em educação, infraestrutura e modelos open source tende a ficar com a maior fatia desse valor.

O Brasil parte de uma posição favorável. Tem a maior comunidade de desenvolvedores da região, uma cultura forte de colaboração em open source, escala de mercado interno e uma indústria audiovisual que já mostrou que sabe competir globalmente. Basta olhar para o desempenho de produções brasileiras em plataformas como Netflix, Prime Video e Max, além das recentes conquistas no Oscar e no Globo de Ouro.

Mas a vantagem inicial não garante liderança no longo prazo. Para que o audiovisual brasileiro mantenha seu papel na IA na América Latina, dois movimentos se tornam decisivos:

Formalizar o open source nas estratégias nacionais de IA

Hoje, os planos nacionais de IA de Brasil, Argentina, Chile, México e Colômbia até mencionam dados abertos, mas quase não entram na discussão sobre modelos open source. Isso cria um vazio estratégico. O próprio relatório da Linux Foundation aponta que formalizar a adoção de IA open source em nível nacional é um passo essencial para quem quer desenvolver tecnologia local e reduzir dependências externas.

Investir de forma consistente na formação de talentos especializados

Cursos genéricos de IA ajudam, mas não resolvem o problema sozinhos. O audiovisual precisa de profissionais que entendam tanto de narrativa visual quanto de modelos de difusão, tanto de linguagem estética quanto de redes neurais. Isso pede programas específicos, construídos em conjunto por universidades, produtoras e plataformas. Iniciativas como o Llama Impact Pan-Latam Hackathon, que mobilizou mais de mil participantes em 2024, mostram que esse caminho já está sendo desenhado.

A Human nasce desse entendimento. Não para ensinar pessoas a apertar botões, mas para ajudar criadores a pensar melhor suas escolhas. Aqui, os cursos de IA são extensões da intenção criativa, do repertório cultural e do olhar autoral de quem cria.

Liderar ou seguir: o Brasil na próxima década da IA no audiovisual

No fim, a questão central não é técnica, é estratégica.

O audiovisual brasileiro quer ser apenas consumidor de IA criada fora, pagando licenças caras e dependendo de ferramentas que podem mudar de preço ou desaparecer a qualquer momento? Ou quer ser co-criador dessa tecnologia, desenvolvendo modelos próprios, contribuindo para projetos globais e construindo capacidades que geram empregos qualificados e valor de longo prazo?

A escolha parece óbvia. Mas escolher é fácil e executar é difícil.

O Brasil lidera a IA na América Latina hoje porque combinou necessidade, oportunidade e cultura. Mas liderança conquistada não é liderança garantida.

O que separa uma tendência passageira de uma transformação real é a capacidade de consolidar o que já funciona: transformar cases isolados em práticas padrão, converter entusiasmo da comunidade em investimento estruturado e fazer da experimentação uma competência central da indústria.

O audiovisual brasileiro tem tudo para não apenas liderar na América Latina, mas se tornar referência global em como integrar criatividade humana e inteligência artificial de forma ética, sustentável e economicamente viável. A janela de oportunidade está aberta.

E aqui vai a provocação: o que essa transformação significa para você?

Se você trabalha com audiovisual, a IA não é mais uma opção, mas parte do contexto. A pergunta não é se você vai usar, mas como vai usar e o quanto vai investir em entender.

Se você investe no setor criativo, os sinais são claros: empresas que integram IA crescem mais rápido, conquistam mercados antes inacessíveis e registram retorno acima da média. Ignorar isso não é prudência, é atraso.

E se você apenas consome conteúdo audiovisual, é bom se preparar. As produções que você vai ver nos próximos anos serão diferentes de tudo que veio antes: mais ambiciosas, mais personalizadas, mais impactantes visualmente.

Tudo isso é possível porque, entre 2024 e 2026, a indústria audiovisual brasileira decidiu que não iria apenas assistir à revolução da IA. Decidiu ser líder. E liderar a IA é tomar decisões criativas cheias de significado, intenção e responsabilidade, que definem não só o que vemos, mas o que sentimos e entendemos. E isso continua sendo algo que só um audiovisual profundamente humano pode fazer.

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