
16 de dez. de 2025
Human Picks
Staff
O AI Creative Festival 2025 fez história no dia 2 de dezembro. Em sua primeira edição, o evento tomou o Instituto Brasileiro de Teatro (IBT), em São Paulo, reunindo o que há de mais inovador para profissionais criativos, agências e produtoras de todo o país.
Apresentado pela Human, esta foi a primeira premiação brasileira dedicada exclusivamente a celebrar a criatividade potencializada pela IA. Foram mais de mil trabalhos inscritos, com os finalistas concorrendo em 15 categorias nos formatos de Imagem, Vídeo e Áudio.
Mas o festival não nasceu apenas para premiar trabalhos bem executados. Ele surge com o propósito mais profundo de responder à pergunta que ecoa na indústria criativa: o que acontece quando ferramentas poderosas chegam às mãos de pessoas com algo real a dizer?
A resposta ficou clara em cada projeto vencedor: a tecnologia expande possibilidades a níveis inéditos, mas ela continua profundamente dependente de algo que nenhum algoritmo replica: intenção, estética e visão humana.

Ponto de partida AICF: criatividade híbrida com propósito
Os projetos premiados reforçaram que domínio técnico não sustenta uma boa ideia sozinho. Quando técnica e sensibilidade se complementam, a criação ganha significado real. Como Nando Blum, CEO e cofundador da Human, definiu:
“O AI Creative Festival nasce como um marco para a indústria criativa no Brasil. Nosso objetivo é mostrar que a inteligência humana continua no centro da criação, com a IA atuando como ferramenta de expansão da imaginação e de novas narrativas”.

O AICF vai além da premiação. É um movimento que celebra a criatividade híbrida, no qual não reverenciamos a IA por ser inteligente, mas os criadores por serem visionários.
Human Talks + Nubank e VML: visão prática da IA na criação
Na abertura do festival, Nando Blum conversou com Fernando Marar (Head de Brand do Nubank) e Pedro Rosa (Diretor Executivo de Criação da VML Brasil). O consenso foi direto: a IA otimiza processos, amplia experimentação e ajuda a prototipar ideias rapidamente, mas não substitui pensamento crítico nem repertório.

Marar destacou como a IA permite explorar múltiplas direções criativas com agilidade. Rosa mostrou como ela transforma ideias abstratas em algo concreto logo no início do processo, reduzindo retrabalho e acelerando decisões estratégicas.
O ponto central é que a IA funciona como ferramenta prática dentro de produções híbridas, ampliando a qualidade do fluxo criativo sem comprometer identidade ou visão autoral.
Por que isso importa para quem trabalha com criação
O Human Talks trouxe algo valioso: casos reais mostrando como empresas estruturam processos híbridos. Para quem ainda está entendendo onde a IA entra no fluxo de trabalho, essa troca ofereceu um mapa claro e aplicado do que funciona hoje.
A presença de Marar e Rosa no palco reforça uma mensagem direta: ninguém está esperando para ver o que vai acontecer. As empresas estão testando, errando, aprendendo e refinando processos agora. O festival captou exatamente esse momento de transição, quando inovação, tecnologia e capacidade humana caminham juntas.
Cases reais: Nubank e VML mostram IA em projetos de grande escala
Durante o painel, Marar e Rosa trouxeram exemplos reais de projetos onde a IA foi determinante, mas sempre com direção humana no centro. Esses cases revelam o caminho entre experimentação e resultado final, mostrando desafios, ajustes e aprendizados que raramente aparecem nas apresentações mais polidas de portfólio.
As “Caixinhas” do Nubank e o desafio de manter uma identidade visual consistente
Fernando Marar apresentou o projeto Caixinhas, recurso do aplicativo do Nubank que permite aos usuários criarem “cofrinhos” virtuais para objetivos específicos. O desafio era criar quarenta imagens fotográficas que funcionassem como ícones dentro da interface, representando diferentes temas e momentos de vida dos usuários. Mais do que isso, as imagens precisavam criar conexão emocional, algo que ilustrações genéricas não entregavam.

O projeto tinha camadas de complexidade: alinhamento com a identidade visual do Nubank, atendimento a dois públicos distintos (Core e Ultravioleta) e um prazo apertado para entregar com precisão e consistência. Marar explicou:
“A gente tem usado IA e testado muito. Criamos um processo interno de contenção de risco, principalmente neste momento em que ainda não sabemos os resultados que ela de fato vai trazer.”
A abordagem foi metódica. A equipe testou diversas possibilidades, ilustração 3D, banco de imagens, o próprio sistema de ilustração do Nubank, até descobrir que fotografia gerava maior associação emocional. Mas como produzir quarenta cenários fotográficos complexos sem estourar o orçamento? A resposta veio com IA, mas apoiada em estratégia.
Com base nos guias de marca, a equipe gerou uma série inicial de imagens via IA. A partir delas, treinou um modelo LORA para criar uma linguagem fotográfica customizada alinhada à identidade da marca. Os princípios eram claros: elemento central reconhecível em thumbnail, expansão natural quando a caixinha é aberta e diferenciação nítida entre Core e Ultravioleta via cor e clima.
Marar admitiu que o processo exigiu tempo:
“Demorou muito para conseguirmos um projeto bem-sucedido que trouxesse o que sempre esperamos da IA: algo que realmente pudesse ir para a rua.”
Após meses de refinamento, as primeiras seis imagens de cada segmento ficaram prontas. Uma vez estabelecido o sistema, as vinte seguintes foram criadas rapidamente. Quando surgiu a necessidade de novas caixinhas meses depois, o padrão já existia:
“Em três semanas criamos o restante das caixinhas.”
O case Caixinhas evidencia algo fundamental: a IA funcionou porque havia processo, critério e muita iteração humana. Como Marar reforçou:
“Em projetos grandes, qual é o espaço que temos para errar? Se der errado, como contornamos? No fim, o projeto precisa ir para a rua.”
VML, BIC e Shakespeare: por que a IA sozinha não executa grandes ideias
Pedro Rosa apresentou o projeto “Uma BIC, Um Livro, Dois Clássicos”, criado para celebrar os 75 anos da caneta BIC. A ideia era ambiciosa: desenvolver um robô capaz de escrever com a caligrafia de William Shakespeare, demonstrando a relevância da caneta por meio da conexão com um dos maiores escritores da história.

Rosa destacou a persistência:
“Essa ideia ficou circulando na agência por alguns anos até finalmente sair do papel.”
A IA foi essencial para treinar o sistema que replicaria a caligrafia histórica e integrá-la ao mecanismo robótico. Mas o projeto só se concretizou porque 81 pessoas trabalharam juntas: agência, cliente, produtora, ilustradores, engenheiros, programadores.
Rosa resumiu:
“A execução dependeu da IA, mas também de 81 profissionais para fazer acontecer. É a prova de que a IA não mata o trabalho criativo.”
Ele reforçou algo essencial:
“Sem agência, cliente, produtora e todos os parceiros envolvidos, a ideia vira só um conceito digital. São as pessoas que fazem acontecer.”
O projeto resultou em uma plataforma digital na qual usuários podem receber mensagens escritas pela “mão de Shakespeare” usando uma caneta BIC, conectando passado e presente. A campanha teve repercussão nacional e internacional, provando que ideias atemporais ganham nova vida quando a tecnologia serve a um conceito forte.
O que esses cases ensinam sobre usar IA em produção real
Ambos os projetos revelam padrões importantes.
Primeiro, tempo de experimentação é investimento, não desperdício. O Nubank levou meses até encontrar o sistema ideal; a VML manteve uma ideia viva por anos até o momento certo.
Segundo, processo estruturado evita frustração. Marar falou sobre “contenção de risco”; Rosa sobre manter rigor mesmo quando a IA gera centenas de variações. Critério é o que separa experimentação produtiva de dispersão.
Terceiro, resultado final depende de equipe, não de ferramenta. Os oitenta e um profissionais do projeto BIC e os múltiplos times do Nubank mostram que IA não elimina colaboração humana, ela redistribui o esforço.
Por último, saber onde errar é tão importante quanto saber onde acertar. Criar espaço para erro e estratégias de recuperação é o que permite que projetos cheguem às ruas em escala.
Nando Blum refletiu durante a conversa:
“O grande ativo é a pessoa por trás das ferramentas. A ferramenta veio para ser copiloto e ajudar a executar ideias. O nome Human vem exatamente disso.”
A visão apresentada no palco reflete um entendimento compartilhado pelos fundadores da Human sobre o momento vivido pela indústria criativa. Para Marioo, trata-se de uma transformação profunda na forma de criar:
“Estamos vivendo uma revolução na forma de criar, e me deixa muito feliz ver a Human à frente desse movimento, testemunhando a criatividade se expressar de maneiras completamente novas.”
Luana Wirth reforçou esse olhar ao destacar o papel da experimentação e do risco criativo nesse novo cenário:
“Queremos parabenizar todos que participaram, que se inscreveram e submeteram seus projetos pela coragem de experimentar, de tirar ideias da cabeça e dar corpo a elas, sendo pioneiros nessa nova forma de criar.”

O AI Creative Festival deixou claro: o diferencial está em como os criadores direcionam ferramentas dentro do fluxo criativo, aplicando repertório, julgamento e intenção.
15 categorias que avaliam intenção criativa, não só resultado
As 15 categorias partiram de um critério central: impacto visual precisa vir acompanhado de propósito. Jurados como Fabio Fernandes, Gabriel Sotero, Gabi Lopes, Mah Ferraz e Nidia Aranha analisaram direção criativa, inovação técnica, mérito artístico e originalidade.
A mensagem é direta: dois criadores podem usar a mesma ferramenta e chegar a resultados completamente diferentes. O que muda são referências, decisões e visão por trás do projeto.
A diversidade da criação com IA
As categorias mostraram que a IA já está consolidada em todas as etapas do audiovisual. A amplitude reflete a realidade do mercado:
Áudio: composição, remix e sound design mostraram que a revolução não é apenas visual.
Imagem: fotografia híbrida, arte digital, identidade visual, moda e design para impressos apresentaram desafios de coerência e consistência.
Vídeo: animação, videoclipe, filme comercial, curta-metragem e produção híbrida revelaram a maturidade da narrativa generativa.
O AICF avaliou mais de mil trabalhos de diferentes regiões do Brasil e do mundo, equilibrando inovação técnica, execução e força conceitual. Finalistas se destacaram por consistência criativa e escolhas estratégicas.
A apresentação e a entrega dos prêmios ficaram sob responsabilidade de Flavia Dos Prazeres, que conduziu o anúncio dos vencedores ao longo da noite.

Todos os vencedores do AI Creative Festival 2025
Música e Som
Original Composition: Vento Sul — Grand Prix Música.
Sound Design: Sopro, de Anderson Freitas.
Remix & Interpretação: Mukama, de Lina.
Imagem
Fotografia Híbrida: Carrano Summer 26, de Cássio Caberlon.
Produto: Ampulheta Chair, de Maurício Coelho.
Arte Digital: Praia, do doisdois studio.
Identidade Visual: World Creativity Festival, de Lucas Foster.
Design para Impressos: Um Só Planeta, de Marcelo Calenda — Grand Prix Imagem.
Moda & Beleza: Chapéu Espacial, do doisdois studio.
Vídeo
Music Video: Superafim feat. Duda Beat – Mouth, de Vinicius Almeida.
Animação: Ismália, de Gabriel Horn.
Filme Comercial: #1 Never Stops Challenging, de Marcello Costa Jr.
One Take: Desert Cathedral, de Elettra Fiumi.
Produção Híbrida: Namegi, de Lucca Meloni.
Short Film + Grand Prix Vídeo + Grand Prix Geral: The Bind, de Adrián Suárez.

Grand Prix: obras que foram além do efeito técnico
O grande vencedor da noite foi “The Bind”, de Adrián Suárez, que levou o Grand Prix Geral, além de Vídeo e Short Film.
Em Música, “Vento Sul”, de Bruno Mello, venceu Original Composition e conquistou o Grand Prix de Som.
Em Imagem, “Um Só Planeta”, de Marcelo Calenda, levou Design para Impressos e o Grand Prix da categoria.

Todos os vencedores destacaram transparência de processo: onde a IA atuou, onde decisões humanas foram essenciais e quais desafios técnicos precisaram ser superados. Essa clareza é crucial para amadurecer o debate sobre autoria.
A grande lição dos bastidores: clareza conceitual
Nos bastidores, criadores falaram não só de sucesso, mas também de frustrações, tentativas e ajustes finos que exigiram horas de experimentação humana.
O ponto recorrente foi a importância de direção específica e clareza conceitual. Ter acesso às melhores ferramentas não adianta se não houver visão clara do que se quer criar. Essa honestidade é o que separa o profissional maduro daquele que só se impressiona com a novidade.
O que o AICF 2025 revelou sobre criação com IA
Se o AI Creative Festival deixou uma mensagem clara, foi esta: não se trata de competir com a tecnologia, mas de aprender a dirigi-la. Os debates reforçaram que integrar IA ao fluxo criativo não significa perder identidade. Pelo contrário: exige ainda mais repertório e posicionamento.
Todos os projetos vencedores mostraram que a IA funciona melhor como extensão do pensamento criativo, não como atalho. O diferencial está na capacidade humana de observar, conectar referências, decidir e contar histórias.
O que vimos foi uso inteligente da tecnologia. Ninguém tentava provar que a IA faz tudo sozinha. Os melhores projetos eram transparentes sobre o processo. Essa postura sinaliza que o mercado está entrando em uma fase mais adulta no uso da IA.
Por que intenção criativa continua sendo o diferencial
Sem intenção, existe ruído. Com intenção, existe narrativa. Os projetos mais fortes tinham voz autoral clara do início ao fim.
A IA pode gerar centenas de variações, mas o criador decide o que funciona. É nesse processo de curadoria que a criatividade realmente acontece.
O movimento AICF está só começando
A primeira edição estabeleceu as bases, mas também deixou várias pistas sobre o futuro. Novas categorias devem surgir acompanhando a rápida evolução das ferramentas e práticas criativas. Conforme mais criadores amadurecem no uso da IA, surgem abordagens tão novas que ainda não se encaixam em uma categoria clara.
Os desafios propostos pelo festival também prometem se tornar mais sofisticados. Se esta testou a consciência e a estratégia, as próximas podem ir além, propondo regras criativas que estimulem soluções mais elaboradas.
Um detalhe importante: alunos da Human Academy têm direito à submissão gratuita, mostrando compromisso em formar a próxima geração de criadores que entende IA como ferramenta, não ameaça. Essa democratização de acesso tende a ampliar a diversidade de participantes, backgrounds e abordagens.
A pergunta que fica: até onde podemos ir?
O AI Creative Festival 2025 levantou uma questão que vai além da premiação: qual é o limite dessa colaboração entre humano e IA? Não no sentido técnico do possível, mas no ético e criativo de até onde vamos chegar, mantendo nossa essência humana no centro do processo.
Como Nando Blum sintetizou:
"Mais do que uma premiação, este é um movimento que conecta artistas, marcas e criativos em torno da criatividade híbrida. A resposta do mercado superou todas as expectativas e nos mostrou que esse debate é urgente e necessário".
O valor está em manter essa questão viva, em continuar questionando nossas práticas e intenções. Cada novo avanço tecnológico vai trazer novas possibilidades e novos dilemas. O papel do festival é criar espaço para conversas honestas e produtivas.

O AICF encerra sua primeira edição consolidado como a principal premiação nacional dedicada à criatividade com IA, projetando novas categorias e presença internacional.
Para quem participou ou assistiu online, o que fica é mais do que a lista de vencedores: fica a confirmação de que tecnologia e intenção humana podem caminhar juntas de forma estratégica e original e a sensação de que estamos construindo algo novo, uma forma única de criar que aproveita o melhor dos dois mundos sem se deixar levar de forma cega pelo brilho da tecnologia.
A expectativa para a próxima edição é alta. O terreno foi mapeado, as bases foram lançadas, e agora a comunidade criativa sabe o que o festival valoriza: visão, identidade, originalidade e, acima de tudo, aquele fator que só humanos são capazes de trazer: a alma.










