
5 de jan. de 2026
Nando
CEO | FOUNDER
Durante anos, repetiram a mesma previsão: a inteligência artificial eliminaria profissões criativas. Designers, redatores, diretores de arte, social media e criadores de conteúdo seriam substituídos por máquinas. Porém, 2025 virou essa narrativa de cabeça para baixo. A IA não apagou o valor humano, ela o multiplicou.
E agora não é só discurso, os números já estão aí para comprovar.
Relatórios internacionais mostram que profissionais que usam IA recebem, em média, até 56% a mais do que seus pares sem essas competências. A criatividade entrou em outra fase e entender o agora é decisivo para quem quer saber onde vai estar em 2026.
Por que dominar IA rende 56% a mais: a matemática do mercado
O dado dos 56% vem do Global AI Jobs Barometer 2025, da PwC, que analisou quase um bilhão de anúncios de vagas em seis continentes. O percentual mais que dobrou em relação ao ano anterior, quando girava em torno de 25%.
Em outras palavras: o mercado global entendeu que saber trabalhar com IA é diferencial competitivo.
Embora o relatório cubra diferentes áreas, as funções criativas aparecem entre as mais beneficiadas. Design, comunicação, marketing, audiovisual, conteúdo e branding estão na linha de frente dessa transformação e a razão é simples: o criativo que combina repertório humano com capacidade de dirigir ferramentas de IA produz mais, melhor e com maior impacto estratégico.
Quando a escassez passa a definir vantagem salarial
O salto salarial não é um acidente estatístico, ele reflete o que falta no mercado: profissionais criativos capazes de alinhar estética, intenção de marca e uso inteligente de ferramentas de IA. Poucos atuam como esse tradutor híbrido que entende cultura e tecnologia ao mesmo tempo, e é essa combinação que o mercado remunera como diferencial.
Na prática, enquanto um designer leva cerca de 8 horas refinando cinco opções de key visual, quem domina IA entrega dezenas de variações com qualidade em muito menos tempo. O valor não está na hora trabalhada, mas no volume real de soluções que esse profissional consegue transformar a partir de um briefing.
Produtividade: o primeiro efeito direto da IA na criação
Um dos motores dessa valorização é o aumento expressivo de produtividade. O Upwork Research Institute identificou que profissionais que usam IA reportam, em média, 40% de ganho de produtividade. O MIT Sloan Management Review já havia apontado que a IA generativa aumentou a criatividade e a qualidade média de textos em até 26%, especialmente entre profissionais menos experientes.
A Adobe reforça o cenário: 96% dos profissionais de marketing viram a demanda por conteúdo duplicar nos últimos dois anos, e 99% dos criativos já utilizam IA para dar conta desse ritmo. Grandes marcas precisam gerar centenas de assets para campanhas segmentadas e o que antes levava semanas de render e adaptação, hoje pode ser feito em poucas horas com ferramentas prompt-to-asset.
A máquina faz o volume e o humano foca em garantir assinatura, coerência estética e estratégia.
Esses números deixam claro que produtividade não significa apenas produzir mais peças. Significa liberar tempo para pensar melhor, testar ideias com profundidade, reduzir retrabalho e atuar em camadas mais estratégicas da criação.
Marcas globais: quando o volume deixa de ser limite e se traduz em ganho real
Marcas líderes globais já implementaram IA em suas operações criativas, com ganhos claros de custo, tempo e performance. Esses exemplos mostram diferentes níveis de maturidade no uso da tecnologia, indo da aceleração de processos até mudanças na forma como os fluxos de trabalho são pensados e executados.
Leia também: IA para agências: como acelerar o processo criativo sem perder qualidade
Branding da Heinz: quando a IA comprova impacto cultural da marca
Em 2023, a Heinz pediu ao DALL·E 2 para desenhar “ketchup” sem mencionar nenhuma marca, no entanto, todas as imagens geradas remetiam visualmente à Heinz. A campanha A.I. Ketchup gerou 1,15 bilhão de impressões, ROI de 2.500% e engajamento 38% maior. Aqui, a IA foi usada estrategicamente para validar o ponto da Heinz enquanto uma das líderes do mercado, com uma marca tão forte que aparece até mesmo quando não é citada.
Mattel e IA: a aceleração de conceitos que redefiniu o ritmo das prateleiras
A Mattel acelerou sua operação com o Adobe Firefly ao gerar dezenas de conceitos de embalagem para a linha Barbie Holiday 2024. Equipes passaram a gastar apenas 30% do tempo em tarefas repetitivas e 70% em estratégia, permitindo que produtos chegassem às prateleiras mais rápido sem comprometer qualidade criativa.
WPP, Nestlé e Unilever: da personalização em escala à otimização da performance com IA
Três grandes players globais implementaram a mesma base tecnológica, em parceria com a NVIDIA Omniverse, para redesenhar seus fluxos criativos, cada um com foco distinto:
A WPP, maior holding de publicidade do mundo, desenvolveu o Content Engine em parceria com a NVIDIA e a Adobe para criar campanhas personalizadas em escala industrial. Clientes como Ford e L'Oréal utilizam o Production Studio para combinar IA generativa com fluxos 3D e gerar centenas de variações de um mesmo comercial para diferentes mercados, segmentos e plataformas em dias, não em meses.

A Nestlé focou em digital twins de produtos: já são 4 mil itens digitalizados, com meta de 10 mil nos próximos anos. A redução de mais de 70% no tempo e custo de criação de assets permitiu que designers gerassem variações de embalagens para diferentes mercados em minutos, algo que antes levava semanas de fotografia e edição. Além disso, a marca também integrou a plataforma CreativeX, uma ferramenta de análise criativa baseada em IA que avalia milhares de campanhas históricas para atribuir uma pontuação de qualidade criativa a cada asset, prevendo performance antes mesmo da veiculação e transformando o processo criativo em um sistema orientado por dados.

A Unilever representa um estágio ainda mais maduro dessa transformação e se tornou referência em 2025. Também usando digital twins para marcas como Dove, Clear, Nexxus e TRESemmé, ela cortou pela metade o tempo de produção de imagens e reduziu custos em 50%. Mais importante: a duplicação de conteúdo caiu de cinco versões para uma, eliminando retrabalho.
Esi Eggleston Bracey, diretor de crescimento e marketing da Unilever, resume:
“Transformamos um processo complexo e lento em um sistema que libera nossos times para fazer o que mais importa: pensar grande, romper fronteiras e criar magia para nossas marcas.”
Coca-Cola e IA: tradição repaginada com menor custo operacional
A Coca-Cola protagonizou um dos cases mais discutidos de 2025 com sua segunda campanha de Natal gerada por IA, uma releitura de Holidays Are Coming (1995). Foram mais de 70 mil clipes testados por uma equipe de IA e cerca de 100 profissionais, resultando em um filme com recordes internos de recall, associação de marca e intenção de compra.
A System1 atribuiu 5,9 estrelas, e o processo foi mais rápido e barato do que o método tradicional. Analistas estimam que a campanha custou entre 60% e 70% menos do que uma produção tradicional de grande escala, que giraria entre 1 e 3 milhões de dólares.
Os dados deixam claro que produtividade, nesse novo contexto, não significa apenas aumentar volume. Ela se traduz em liberar tempo para pensar melhor, testar ideias com mais profundidade, reduzir retrabalho e atuar em camadas mais estratégicas da criação, conectando eficiência criativa ao crescimento de receita e ganho de margem.
Quando a empresa cresce mais, o criativo passa a valer mais
Relatórios da PwC e do IBM Institute for Business Value mostram que organizações com adoção madura de IA registram até três vezes mais receita por funcionário do que empresas que ainda operam de forma tradicional. Essa diferença acontece porque testes, validações e ajustes de estratégia passam a ser muito mais rápidos e o criativo que opera nesse ritmo deixa de ser executor e se torna motor de crescimento.
O case da IBM ilustra o impacto: a empresa economizou 3,9 milhões de horas em 2024 usando IA e reportou US$ 3,5 bilhões em ganhos de produtividade em dois anos. Parte significativa veio de equipes criativas e de consultoria que aumentaram produtividade em até 50% usando IA. Isso reduziu custos e permitiu atender mais projetos simultâneos sem ampliar quadro de funcionários.
Não à toa, 66% das empresas já observam ganhos significativos de produtividade, e 92% esperam retorno direto de investimentos em agentes de IA nos próximos dois anos.
Essa mudança no topo da pirâmide explica a valorização na base: quando a empresa cresce mais rápido, ela naturalmente aumenta o valor de quem acelera esse crescimento.
O mercado não quer menos criatividade, quer criatividade híbrida
Outro ponto importante revelado pela PwC é o crescimento acelerado das vagas que exigem habilidades em IA. Hoje, o mercado redesenha funções e busca por criativos capazes de combinar imaginação, análise, intuição, dados, repertório e tecnologia.
O valor está justamente nessa fluência híbrida: além de usar a IA, o profissional a integra às suas ideias e ao fluxo tradicional de trabalho, criando um processo contínuo e inteligente. Essa camada de conhecimento, que vem de anos de prática, não pode ser automatizada. É ela que define propósito, contexto e impacto, fazendo o trabalho ressoar com o público. Essa combinação ainda é rara, e é exatamente por isso que é tão valorizada.
Leia também: Workflow híbrido: combinando IA com ferramentas tradicionais
O novo papel do profissional criativo
Em 2025, criativos que usam IA deixam de ser só produtores de volume e passam a atuar como curadores, estrategistas e arquitetos de sistemas criativos. Eles dirigem as ferramentas, definem critérios estéticos, estruturam narrativas e tomam decisões que dão significado ao que é produzido.
Esse profissional não se limita a delegar suas tarefas à IA. Ele orienta o que a tecnologia pode criar, trazendo a bagagem da sua área, seu repertório cultural, a sensibilidade, a compreensão de contexto e o julgamento crítico que transforma algo funcional em resultado prático. Cada criativo usa a IA de maneira própria, potencializando suas ideias com a experiência que já carrega.
A IA entra como ferramenta para ampliar alcance e qualidade, encurtando o caminho entre ideia e execução.
Por que isso é só o começo em 2026
Se 2025 estabeleceu a virada, 2026 tende a acelerar. A Statista aponta que o mercado global de IA deve saltar de 244 bilhões de dólares em 2025 para 312 bilhões em 2026, mantendo um crescimento anual de 27,7%. A Microsoft também aponta que a IA se tornará parceira de trabalho, com agentes digitais atuando como colegas especializados sob direção humana.
O que muda agora: menos execução, mais visão
O diferencial deixa de ser saber usar IA e passa a ser saber pensar com IA: formular perguntas melhores, identificar oportunidades, ler comportamento humano, interpretar contextos socioculturais e, acima de tudo, transformar dados em narrativa. O criativo que dominar essa fronteira será um dos profissionais mais disputados de 2026.
Conclusão
A inteligência artificial ampliou o alcance da criatividade e mudou a forma como valor é gerado. Em 2025, ficou claro que profissionais e equipes capazes de operar IA com repertório produzem mais, com mais consistência e impacto direto nos resultados do negócio.
Com mais velocidade e menos retrabalho, empresas passaram a colocar campanhas no ar mais rápido, testar variações em escala e responder ao mercado com precisão. Esse ganho operacional se converte em algo ainda maior: mais eficiência, mais receita e melhor aproveitamento de investimento criativo.
A questão agora não é se o movimento vai continuar, mas quem vai estar preparado para ele. A criatividade segue humana, passa a conduzir sistemas inteligentes e a operar de forma híbrida com eles. É nesse ponto que quem compreende isso antes dos outros chega a 2026 alguns passos à frente.
E aí, você já está pronto para usar a IA de verdade ou vai seguir entregando volume sem estratégia?







