Como abrasileirar a IA: identidade cultural, repertório brasileiro e direção criativa aplicada no audiovisual

Como abrasileirar a IA: identidade cultural, repertório brasileiro e direção criativa aplicada no audiovisual

Como abrasileirar a IA: identidade cultural, repertório brasileiro e direção criativa aplicada no audiovisual

3 de mar. de 2026

Human Picks

Staff

Peça para uma IA gerar a imagem de “uma pessoa elegante no Brasil” e veja o que aparece: pele clara, traços europeus, prédios que parecem saídos de Nova York, um escritório genérico que poderia estar em qualquer grande capital estrangeira. É bonito, organizado e coerente, mas pouco lembra o Brasil de verdade.

Não é erro, é a IA entregando o que aprendeu. Durante o treinamento, esses modelos consumiram milhões de imagens produzidas principalmente por mercados como China, Estados Unidos e Europa, que concentram boa parte da produção e da circulação de imagens online. Quando a base vem quase toda desse recorte, o que aparece mais vira referência e o sistema aprende aquilo como padrão.

É possível melhorar os resultados com detalhes específicos, referências visuais e instruções mais precisas, mas abrasileirar a IA não é só acrescentar "Brasil" ao prompt e esperar que o algoritmo resolva. Estética brasileira não pode se reduzir a filtro tropical nem cor saturada. Representar o Brasil exige contexto, diversidade, e leitura sociocultural. Enquanto o profissional criativo não entende isso, continua tentando “corrigir” nas palavras algo que já nasce com viés.

Neste guia, vamos mostrar como construir resultados que realmente dialoguem com a complexidade brasileira para que você assuma a direção criativa do seu processo, sabendo para quem você cria e a partir de qual realidade fala.

Por que a IA reproduz padrões estrangeiros

Os grandes modelos de geração de imagem foram treinados com bases gigantes de dados, como as organizadas pela LAION, onde aproximadamente 2,32 bilhões de pares imagem-texto estão em inglês. O idioma não é detalhe: é o principal canal de transmissão de valores culturais para o modelo.

Quando o idioma dominante é o inglês, o olhar que acompanha esse idioma também domina. Palavras como “sofisticado”, “elegante”, “poderoso” passam a ser interpretadas a partir de uma referência norte-americana e europeia. A diversidade étnica brasileira, a arquitetura das cidades do interior, a luz tropical, a textura dos materiais locais quase nunca aparecem como ponto de partida.

O resultado tem um nome: estética default (ou padrão). Essa é uma média visual construída com base no que mais circula na internet global. Nesse recorte, o Brasil costuma surgir sempre pelos mesmos símbolos repetidos: futebol, carnaval e favelas cariocas.

O viés não é um acidente, mas uma consequência direta da forma como o sistema foi treinado. O modelo aprende com aquilo que aparece em maior quantidade e, quando a base é desigual, o resultado também tende a ser. No fim das contas, é estatística operando sobre um repertório limitado.

Esse é o ponto central e todo o resto parte daqui.

Brazil Core: identidade cultural ou estética moldada por algoritmo?

Entre 2024 e 2025, a identidade visual brasileira ganhou destaque global. Verde e amarelo, azul-anil, camisa de time, estética urbana, referências ao funk, ao sertão, ao litoral. O que antes era tratado como "exótico para o olhar estrangeiro" virou uma estética desejada. O chamado Brazil Core entrou no radar de marcas, produtores e plataformas internacionais.

Esse movimento ganhou mais força com o boom do audiovisual brasileiro no circuito global. "Ainda Estou Aqui" nas principais premiações em 2025 não foi só um sucesso de bilheteria, foi um sinal de que a narrativa brasileira tem consistência para competir em qualquer contexto. O sentimento de pertencimento, de uma identidade latino-americana que não precisa se explicar para existir, ficou cada vez mais presente no imaginário criativo.

Marcas brasileiras também perceberam rapidamente o valor desse momento. Depois de décadas replicando referências estrangeiras, parte delas passou a apostar na própria identidade como diferencial estratégico e de posicionamento.

Só que o Brazil Core também cresce dentro de uma lógica de plataforma. Algoritmos de recomendação do TikTok e do Instagram identificam padrões de engajamento e os impulsionam. O que viraliza não é necessariamente o Brasil mais complexo, é o Brasil que gera mais clique e retenção.

E aí surge a pergunta incômoda: quem ganha com essa estetização do Brasil? Em que momento identidade vira produto exportável? Em que momento vira performance moldada para agradar ao algoritmo?

A cultura brasileira está, sim, mais visível. Mas a versão que começa a ser aprendida pelos modelos de IA é a que mais circula nas plataformas: cores cada vez mais vibrantes, símbolos repetidos, traços exagerados. A IA tende a reproduzir o Brasil mais repetido, não o mais diverso.

Isso importa porque a linha entre representação e caricatura é mais fina do que parece.

Quando identidade vira decoração

A representação vira caricatura quando os símbolos se soltam das histórias que deram origem a eles.

O funk carioca estilizado, mas sem nenhum traço da realidade que fez ele nascer. Favela usada como cenário, mas sem as pessoas que vivem ali e sem as características que ela carrega. Carnaval reduzido à fantasia e glitter, ignorando toda a mistura de culturas e religiões que está na base da festa. Verde e amarelo jogado em qualquer peça como se fosse um botão automático de brasilidade.

No fim, o que sobra é estética vazia e identidade virando enfeite.

Para quem cria, a pergunta que realmente importa é simples: esse símbolo tem uma história sustentando ele ou está ali só para compor imagem?

As marcas que conseguem responder isso com coerência mostram, na prática, a diferença entre apropriação estética e construção de significado.

Leia também: O futuro da composição visual: IA como ferramenta, humano como critério

Como testar o padrão cultural de um modelo de IA

Antes de usar qualquer ferramenta para criar com identidade brasileira, vale mapear o que o modelo realmente entende do nosso contexto. O teste é simples e costuma ser bem revelador.

Teste 1: com e sem referência nacional

Peça para gerar “uma mulher de negócios em uma reunião” e depois “uma mulher de negócios brasileira em uma reunião”. Compare características físicas, ambiente, roupas e arquitetura. Se a segunda imagem for quase igual à primeira, só com algum detalhe mudado, o modelo não tem uma representação real do Brasil.

Teste 2: variação regional

Tente “um escritório em Belo Horizonte”, “uma pessoa do Nordeste do Brasil”, “uma cena de rua em Salvador”. Se tudo acabar parecendo Rio ou São Paulo “europeizados”, o modelo está reproduzindo a média dos dados que recebeu.

Teste 3: vocabulário técnico local

Use termos específicos, como “cobogó”, “calçada de caquinho”, “muro de chapisco”, “renda renascença” ou “bordado filé”. Se o modelo responder visualmente de forma coerente, há uma representatividade razoável. Se produzir imagens genéricas ou erradas, o viés fica claro.

O que observar nos resultados: etnia dos personagens quando não há especificação, arquitetura e cenário de fundo, precisão nos detalhes locais e consistência quando a referência é regional.

Esses testes não resolvem o problema de cara, mas mostram com o que você está lidando na hora de criar, o que é o pré-requisito para qualquer direção criativa competente.

Especificidade na IA: o que você deve colocar no prompt

A melhor forma de fugir da estética padrão é trocar adjetivos genéricos por detalhes técnicos e culturais. É aqui que o repertório humano faz diferença de verdade.

Materiais e superfícies

Em vez de "textura artesanal", use "renda renascença", "bordado filé", "estamparia manual e, "richelieu". Em vez de "arquitetura brasileira", use "cobogó", "platibanda", "muro de chapisco", "calçada de caquinho". O modelo é empurrado para fora do padrão quando encontra termos com alta especificidade cultural.

Luz

A luz é o que mais dá autenticidade ao audiovisual. A luz brasileira é intensa, com sombras fortes, diferente da iluminação mais “apagada” e cinza que domina os dados europeus.

Funciona bem usar coisas como: “luz de sol baixo no Nordeste”, “fim de tarde no Rio de Janeiro”, “luz dourada do sertão”, “sombra dura de meio-dia tropical”. Até mencionar diretores de fotografia brasileiros ajuda a ancorar o contexto.

Design local

Tipografias manuais de cartazes de supermercado, letreiros pintados à mão em botequins, artes de lambe-lambe: esse vocabulário funciona tanto como referência de briefing quanto como dado de prompting. É a estética do varejo popular brasileiro, com cores contrastantes e letras de giz ou pincel, uma alternativa direta ao minimalismo sem graça que muitas vezes é a base dos modelos globais.

A regra fundamental: tudo isso só funciona se quem está construindo o prompt conhece o que está descrevendo. A IA não tem repertório próprio para o Brasil, ela depende do repertório de quem direciona.

O Mapa de DNA Visual: um método de briefing cultural para a IA

Não existe “abrasileirar” sem briefing. Antes de abrir qualquer ferramenta de IA, vale definir quatro camadas:

1. Código visual inegociável 

Quais elementos se repetem? Paleta de cores, tipografia, textura, proporções. Por exemplo: “sempre luz difusa”, “nunca fundo neutro”, “pele com textura real, nada suavizada digitalmente”.

2. Referências de origem

De onde vem a identidade que você quer representar? Qual região, qual contexto social, qual período histórico, qual subcultura? Quanto mais específico, mais longe do padrão o modelo vai trabalhar.

3. O contexto que importa 

Existem símbolos que carregam peso cultural, mas só fazem sentido quando usados com propósito. No Nordeste, o verde-amarelo precisa dialogar com a história local. Já em São Paulo, pessoas dançando frevo ou a inclusão de elementos típicos de outras regiões sem um contexto claro ficam deslocados. A brasilidade precisa ser consciente e ter intenção. Do contrário, mesmo com esses elementos, tudo acaba parecendo genérico e forçado, bem parecido com o que a IA geraria por padrão.

4. O ponto de vista que atravessa tudo 

Consistência é um ponto de vista que atravessa todas as variações. Defina qual é esse ponto de vista antes de gerar qualquer conteúdo.

Ferramentas como o Seedream (que mantém consistência facial e renderiza texto em 4K) ou o Nano Banana Pro (consistência de personagens via linguagem natural e múltiplas referências) resolvem o lado técnico de manter coerência visual entre vários assets. Para vídeo, o Runway estabeleceu novos padrões de realismo com controle mais intencional.

Mas vale reforçar: consistência técnica sem consistência cultural gera personagens bem feitos, mas em ambientes errados. O Mapa de DNA Visual garante que o modelo siga na direção certa, não apenas com precisão, mas com significado.

Como abrasileirar seus resultados com IA na prática: o que cada ferramenta entrega

Midjourney: referência artística como âncora cultural

O Midjourney é um dos modelos com maior capacidade estética, mas também puxa forte para o ocidental. Então, prompts genéricos tendem a gerar resultados que parecem editoriais mais europeus mesmo. Para fugir disso, o segredo é combinar referência + especificidade.

O que funciona: escreva o prompt em inglês (o modelo processa melhor),  mas use termos técnicos brasileiros dentro dele. Por exemplo: “Cobogó window”, “muro de chapisco texture”, “renda renascença embroidery”. Termos assim ativam conjuntos de dados mais específicos do que "Brazilian architecture" ou "Brazilian fabric".

Use também o parâmetro --sref com imagens de referência visual para ancorar o estilo. Quer a paleta da sua marca, a estética do Nordeste ou a fotografia documental brasileira dos anos 70? Suba uma imagem de referência. O modelo vai buscar coerência com ela.

Para luz, seja literal e técnico: “harsh tropical noon shadows”, “golden hour in low latitude”, “high-saturation afternoon light, São Paulo”. O modelo entende a física de iluminação melhor do que conceitos culturais abstratos.

O que evitar: não use “Brazilian style” ou “Brazil aesthetic” sem referência visual. O modelo vai gerar o Brazil Core do TikTok: saturado, caricato, genérico.

Nano Banana Pro: o raciocínio contextual a seu favor

O Nano Banana Pro é ótimo para quem precisa de consistência em campanhas ou para quem já tem boas bases visuais. Ele se destaca tanto na geração do zero quanto na edição contextual e na composição de múltiplas referências.

Ele aceita até 14 imagens de referência em uma composição e mantém consistência de até 5 personagens ao longo de várias gerações. Para abrasileirar, use isso de forma estratégica: monte um conjunto de referências que representem o universo visual que você quer construir. Uma foto de rua de São Paulo com a luz certa, um detalhe de arquitetura local, uma textura de material brasileiro. O modelo vai buscar coerência com essas referências em vez de operar só pelo padrão.

Outro ponto forte é o raciocínio contextual: o Nano Banana Pro entende instruções complexas em linguagem natural, sem precisar de prompts rígidos. Você pode escrever algo como faria em um briefing para um diretor de arte: “Mantenha a textura do cobogó no fundo, mas troque a iluminação para luz de tarde, quente e direcional”. Funciona sem precisar transformar tudo em palavras-chave isoladas.

Para edição de materiais já existentes, é onde ele mais se destaca: troque o fundo de um produto por uma paisagem de Trancoso, ajuste a iluminação de uma cena para luz tropical, adicione elementos do design local. Tudo sem recriar a imagem do zero.

Seedream: consistência de personagem e materiais

O Seedream tem um ótimo custo-benefício para quem precisa que o mesmo personagem apareça em diferentes cenas.

Para abrasileiramento, o ponto principal é a referência de imagem combinada com especificidade de material e cena. O modelo tem uma instrução oficial que recomenda escrever termos profissionais ou culturais no idioma original. Isso significa que "renda renascença", "calçada de caquinho", "cobogó" entram no prompt como são, sem precisar traduzir. O modelo tende a respeitar esses detalhes específicos como âncora visual.

A estrutura de prompt que funciona é: sujeito + ação + ambiente + especificidades de material e luz. Exemplo prático: em vez de "mulher brasileira numa praça", use:

"mulher negra de cabelo cacheado, roupa de algodão cru, praça de interior com calçada de caquinho e poeira, luz de tarde no Nordeste, sombra dura lateral, fotografia documental". 

Para consistência em campanha: construa um “master shot” bem resolvido, salve a semente (seed) e use como referência para todas as variações. Alterne um elemento de cada vez, seja o ângulo, o ambiente ou o enquadramento. Assim você mantém a identidade visual sem perder a coerência entre as imagens.

Uma dica prática: o Seedream funciona melhor quando você fala de forma direta sobre o que quer mudar. Em vez de só descrever o resultado final, vale indicar o que precisa continuar igual e o que deve ser alterado. Por exemplo: “mantenha a pose e troque o material da roupa de sintético para linho natural”. Esse tipo de orientação costuma gerar respostas mais precisas.

Higgsfield: treine o modelo no seu universo visual

Enquanto os outros modelos operam por prompt e referência de imagem, o Higgsfield oferece um nível adicional: você pode treinar um personagem ou identidade visual com suas próprias imagens e usar isso como âncora em todas as gerações.

A função mais relevante para o abrasileiramento é o Soul ID. Suba entre 10 e 20 fotos de um personagem real (ator, modelo, influenciador, figura pública), com autorização, e o modelo treina em cerca de 3 minutos e gera um "gêmeo digital" com consistência de rosto, postura e expressão em qualquer cena, luz ou estilo. 

Para campanhas com personagens recorrentes com traços étnicos específicos, essa é uma ferramenta que resolve o problema de consistência sem recriar o personagem a cada geração.

O Soul Moodboard funciona como briefing visual formalizado dentro da ferramenta: você sobe referências de estilo, tom e direção criativa, e o modelo as usa como parâmetros de geração. Quer criar um universo visual nordestino, carioca periférico ou paulistano artístico? Monte o moodboard com imagens representativas dessas estéticas. É como entregar um manual de marca para IA.

O Image Reference Tool vai além: ele utiliza uma tecnologia de mapeamento de atmosfera visual que permite apontar uma referência diretamente no navegador e extrair dela não o conteúdo, mas a sua “alma” estética, com iluminação, paleta e composição.

Imagine que você encontrou uma foto de rua de Recife com a luz e a textura certas ou um frame de um documentário brasileiro dos anos 80. Em vez de apenas copiar a imagem para usar como uma referência, o modelo analisa esses elementos técnicos e os aplica ao seu conteúdo original, garantindo que a identidade brasileira que você busca seja replicada com precisão.  

Para geração de imagem com múltiplas referências, o FLUX.2 disponível no Higgsfield tem um diferencial técnico específico: aceita hex exato de cor. Isso significa que você pode definir a paleta do universo visual com precisão de marca, não como descrição aproximada. "Azul-anil #1E3A8A, terracota #C4622D, creme #F5F0E8": o modelo renderiza nesses valores, não em uma interpretação livre do que "tropical" significa para ele.

Leia também: Higgsfield Cinema Studio: como simular câmeras profissionais em vídeo com IA

ChatGPT: útil para criar conceito, mas limitado na representação cultural

O ChatGPT ajuda muito na etapa de brainstorming, mas as imagens geradas nativamente por ele tendem a ser mais neutras e genéricas quando o assunto é contexto brasileiro. Por isso, o papel dele no seu fluxo deve ser o de estruturar a ideia antes da execução em outros modelos.

Peça cinco versões de prompt mais técnicas, já com indicação de luz, material, cenário e atmosfera, e depois use esses prompts refinados para produzir as imagens.  Seja direto nas referências de etnia, território e arquitetura. Quanto mais concreto, melhor o resultado. Por exemplo:

“Mulher negra, cabelo cacheado, zona sul de São Paulo, prédio residencial simples com topo reto, luz de fim de tarde entrando pela janela”

Esse tipo de descrição te ajuda a gerar imagens muito mais próximas da realidade do que termos amplos e genéricos como “Brazilian woman”.

Tecnologia com identidade local: o avanço das soluções brasileiras em IA

Hoje, quem define em grande parte como o Brasil aparece nas imagens e nos modelos de IA são as empresas que construíram os grandes bancos de dados e treinaram esses sistemas. Nomes como OpenAI e Google (EUA), ByteDance e Alibaba (China), além de centros emergentes de alta computação no Oriente Médio, concentram essa infraestrutura. A maioria dessas organizações carrega, por padrão, visões de mundo que tendem a tratar o Sul Global de forma homogênea ou estereotipada.

Mas já existem movimentos tentando equilibrar esse cenário. O Projeto Amplify, resultado da parceria entre UFMG e Google Research, busca reduzir lacunas culturais e linguísticas em português brasileiro em modelos de linguagem e visão computacional. Na mesma linha, a Maritaca AI desenvolveu os modelos Sabiá, pensados para o contexto nacional e que têm apresentado bom desempenho em tarefas relacionadas à compreensão cultural local.

Para quem trabalha de forma individual com essas ferramentas, disputar esse território simbólico começa na prática cotidiana. Um prompt bem construído, com referências culturais específicas e resultado melhor do que o padrão genérico, quando registrado e compartilhado, ajuda a ampliar o repertório coletivo sobre como usar IA com identidade local.

A inteligência artificial tende a reproduzir o que aprendeu nos dados. Com direção e intenção clara, é possível deslocar esse padrão. Mas isso exige consciência de onde está a média, o que ela deixa de fora e qual narrativa você quer construir a partir daí.

Marcas brasileiras e a construção de identidade visual como estratégia

Para que a direção criativa na IA faça diferença de verdade, vale olhar para quem já resolveu o desafio da identidade antes dela. Algumas marcas brasileiras construíram sistemas visuais coerentes onde a brasilidade é estratégia consistente e não só recurso pontual de campanha.

O que elas fazem que muitos ativos gerados isoladamente por IA ainda não conseguem fazer sozinhos é sustentar um ponto de vista visual ao longo do tempo. Não ficam correndo atrás de tendência o tempo todo. Também não precisam explicar demais o que são.

Granado

Fundada em 1870, a Granado construiu um repertório visual bem definido: verde-musgo, tipografia serifada clássica, rótulos que lembram antigas farmácias. O interessante não é só a referência ao passado, mas a forma como isso foi atualizado e virou sinal de sofisticação hoje.

A marca trata a brasilidade como patrimônio cultural. Sem apelar para verde e amarelo, sem exagerar no tropical, sem recorrer aos símbolos mais óbvios. Parte da ideia de que o Brasil tem história visual própria, com elegância e continuidade.

Para a IA, esse tipo de detalhe não aparece automaticamente, precisa estar claro no briefing antes de qualquer geração.

Havaianas

Um dos casos mais conhecidos e ainda muito atual. A marca popular que virou símbolo cultural global mantendo sua origem. A Havaianas construiu isso ao longo do tempo, reforçando em campanhas, coleções e colaborações.

Cores vibrantes, referências tropicais tratadas com leveza e comunicação descontraída.

O produto não virou internacional apesar de ser brasileiro, virou internacional por ser brasileiro. Essa inversão de lógica é o que separa uma marca com DNA local de uma marca que usa o local apenas como cenário.

Natura

A Natura estruturou sua identidade a partir da biodiversidade brasileira como base do negócio. A natureza está presente na embalagem, no discurso e no desenvolvimento dos produtos.

Texturas naturais, paleta mais terrosa e linguagem conectada ao território sem exageros. 

Melissa e Reserva

São caminhos diferentes, mas com clareza parecida.

A Melissa trabalha design, experimentação e cultura pop há décadas com consistência. O DNA aparece na atitude, na forma de lançar produtos e nas colaborações. Essa irreverência e exagero também fazem parte da brasilidade.

A Reserva usa humor, cultura urbana e situações do cotidiano como ponto de partida criativo. Estampas, etiquetas e campanhas partem de um olhar sobre o Brasil que mistura afetividade e senso crítico. 

As marcas não precisam dizer que são brasileiras, já que cada peça faz esse trabalho.

O que essas marcas ensinam

Nenhuma dessas marcas depende de tendência para parecer brasileira. Elas operam com um conjunto de decisões visuais e narrativas que se repetem com variações ao longo dos anos. Isso cria reconhecimento sem deixar tudo engessado. E, mais importante, mostram que o Brasil não é único: existem vários “Brasis” diferentes, com raízes fortes e mistura de culturas que dão profundidade e riqueza à identidade.

Quando a IA é usada sem direção, o resultado costuma ser genérico. A ferramenta, sozinha, tende ao que é mais comum. Para chegar perto do que essas marcas constroem, é preciso transformar identidade em orientação clara antes de começar a gerar qualquer coisa.

Conclusão: só quem direciona consegue construir identidade forte com IA

O uso da IA com identidade brasileira não é apenas uma questão técnica, mas de controle sobre narrativa e representação.

As ferramentas continuam sendo desenvolvidas em grande parte fora do país e os bancos de dados seguem majoritariamente estruturados a partir de referências globais. Apesar dos avanços, esse cenário não vai mudar tão rápido quanto a velocidade de produção de conteúdo.

O que precisa mudar de verdade é a postura de quem cria com IA. Quem entende como funciona o viés consegue contornar as brechas do sistema. Quem tem repertório cultural forte transforma isso em direcionamento claro na hora de escrever um prompt. Quem constrói método cria sistema para ir além do padrão automático que a ferramenta entrega.

Marcas como Granado, Havaianas e Natura construíram identidade consistente muito antes da IA e ampliam isso com a tecnologia. O que elas fizeram ao longo do tempo e continuam fazendo, com escolhas editoriais e decisões repetidas, é justamente o tipo de lógica que hoje precisa ser organizada antes de gerar qualquer imagem ou texto.

O Brasil que a IA produz por padrão é o Brasil reduzido e estereotipado. O Brasil que o criativo com repertório produz é o Brasil que ele conhece e vive. Identidade não nasce do modelo, mas da direção aplicada sobre ele com a sua bagagem.

Num momento em que o Brasil finalmente ocupa espaço no imaginário global, deixar esse trabalho de DNA para o algoritmo resolver seria um desperdício de oportunidade de mostrar a profundidade de uma cultura que vai muito além do que qualquer base de dados consegue capturar.

Para aprofundar como transformar repertório em resultado, veja como diretores de arte já estão expandindo a criatividade com IA.

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