Cases de sucesso: marcas e criativos que inovaram com IA na produção audiovisual

Cases de sucesso: marcas e criativos que inovaram com IA na produção audiovisual

Cases de sucesso: marcas e criativos que inovaram com IA na produção audiovisual

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Staff

Falar que marcas e criadores estão usando inteligência artificial já não é novidade. Segundo um levantamento da StackAdapt, cerca de 93% das marcas e 94% das agências já afirmam que a IA melhora a velocidade e eficiência dos fluxos de trabalho de marketing.

Mas ainda existe uma diferença importante entre usar IA para acelerar um processo e usar IA como parte da construção da ideia. Essa diferença aparece no resultado, mas começa muito antes, na forma como a ferramenta entra no projeto criativo.

Os cases reunidos aqui partem desse ponto. São projetos em que a inteligência artificial funciona como ponto-chave da criação audiovisual: campanhas que transformam dados em narrativa, filmes independentes que alcançam lugares ocupados por grandes produções, instalações que reposicionam o papel dos dados na construção de memória afetiva.

São trabalhos diferentes entre si, mas que apontam para a mesma direção, com a IA passando a influenciar a forma como a ideia nasce, se desenvolve e ganha forma.

Como marcas estão usando IA para transformar dados em narrativa audiovisual

O projeto da Natura que transformou a Amazônia em catálogo interativo

A Natura ganhou o Grand Prix de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Cannes Lions 2025 com a campanha The Amazon Greenventory.

Antes de virar campanha, o projeto começou com IA e drones mapeando 400 km² da floresta amazônica em seis meses, identificando cerca de 30 mil árvores de espécies que produzem insumos usados em cosméticos, como óleos, manteigas e resinas que entram em linhas como a Ekos

Por si só, isso poderia ser apenas mais uma operação de dados ambientais.

A virada veio quando esses dados deixaram de funcionar só como documento. Em vez de virar relatório interno, a Natura construiu uma plataforma digital em que o usuário podia navegar pelo mapa da floresta e visualizar cada árvore individualmente: de onde ela está, qual espécie é, qual ingrediente produz. 

A lógica por trás disso era mostrar que a floresta em pé tem mais valor econômico do que derrubada: as comunidades locais colhem os insumos de forma sustentável e a Natura se comprometeu a comprar toda a produção, garantindo renda a quem preserva.

Aqui, a IA deixou de operar como infraestrutura e passou a funcionar como linguagem. Ela viabilizou escala, mas a decisão criativa foi outra: dar forma a números que, sozinhos, não comunicam nada.

Mais do que uma campanha com IA, o que a Natura fez foi um exemplo de como dados podem ser organizados para contar uma história que engaja, conscientiza e gera impacto social.

Hoje, muitas marcas já conseguem mapear, coletar e processar informação, mas ainda param aí, travando na hora de transformar isso em algo que as pessoas consigam entender, sentir e ter interesse real em acessar.

O aprendizado que esse projeto deixa é claro: IA não serve só para gerar imagem ou vídeo isoladamente. Ela ajuda a dar forma ao que antes não conseguia ser comunicado com clareza, expandindo uma ideia em algo aplicável, que entretém, vende e conscientiza.

Duolingo e o storytelling de personagem com IA

O Duolingo não é um case de campanha pontual. É um projeto de marca pensado para funcionar em escala, do aplicativo às redes sociais, passando por mídia out of home até campanhas globais.

Aqui, a questão não é estética ou experimentação visual, mas consistência.

O personagem Duo segue regras bem definidas. Humor caótico, presença constante em tendências de internet e reações exageradas que funcionam porque os limites do personagem já estão claros. Essa base orienta tudo o que é produzido.

Essa consistência se desdobra diretamente no audiovisual. O Duo aparece em vídeos curtos, campanhas e ativações que combinam linguagem de internet com lógica de jogo, mantendo o mesmo comportamento em formatos diferentes. A IA ajuda a adaptar esse personagem para cada contexto sem quebrar sua identidade, permitindo que a marca opere em volume sem perder reconhecimento.

A IA entra para sustentar esse sistema. Ela acelera variações de roteiro, adapta conteúdo por mercado e mantém a frequência de publicação, abrindo espaço para que o time criativo se concentre em decisões mais estratégicas e na construção de ideias mais relevantes.

O resultado é um personagem que atravessa formatos e contextos sem perder coerência. Do ponto de vista do público, parece natural. Nos bastidores, existe um sistema que usa IA para manter ritmo, não para substituir direção criativa.

O Duolingo mostra que o ganho não está no visual isolado, mas na capacidade de sustentar presença criativa contínua sem diluir identidade.

Leia também: Storytelling visual em vídeo: narrativas que conectam com IA

The New York Times e o uso editorial da IA

O The New York Times segue um caminho diferente do que boa parte do mercado vem fazendo com IA. Aqui, o foco vai além da estética ou da automação e se volta para uma solução criativa ancorada em uma prática central do jornalismo: transformar evidência em narrativa.

Isso aparece com clareza nas produções da equipe de Visual Investigations, que reconstrói eventos a partir de dados, imagens de satélite, vídeos fragmentados e registros indiretos. Em coberturas de conflitos, por exemplo, o jornal já utilizou IA para analisar imagens e reconstruções que mostram o que nenhuma câmera registrou diretamente.

A IA entra nesse processo como apoio para organizar, simular e visualizar cenários complexos, preenchendo lacunas narrativas e permitindo que o público veja o que antes precisava ser apenas descrito.

Essa abordagem não é exclusiva do cenário internacional. No Brasil, telejornais também recorrem a reconstruções e simulações audiovisuais em coberturas de acidentes, operações ou eventos sem registro direto, incorporando cada vez mais recursos baseados em IA em suas transmissões.

Para quem trabalha com conteúdo, esse é um dos sinais mais claros de maturidade. Quando a tecnologia passa a estruturar como a história é contada, o vídeo deixa de depender apenas do que foi captado e ganha capacidade de explicar, contextualizar e revelar camadas que antes ficavam fora da narrativa.

Leia também: Como o Brasil se tornou protagonista da transformação criativa com IA na América Latina

Artistas e criadores que estão expandindo a linguagem com IA

Criação audiovisual imersiva a partir do treinamento de dados

O artista Refik Anadol é um dos exemplos mais citados de uso de IA em vídeo como linguagem artística. Aqui, a tecnologia transforma dados em experiência visual.

O processo parte da coleta de grandes volumes de informação, passa pelo treinamento de modelos generativos e se materializa em instalações físicas que tomam forma no ambiente. A obra não parte de uma referência externa. Ela surge do que a própria inteligência artificial constrói a partir do que aprendeu.

Em Unsupervised, exibida no Museum of Modern Art, o artista alimentou uma IA com informações de 200 anos da coleção do museu. O resultado foi uma instalação de mais de sete metros que se transformava em tempo real conforme a luz e o movimento dos visitantes. O tempo médio de permanência na instalação de Refik foi de 38 minutos, contra 27 segundos de visualização em outras obras famosas, como A Noite Estrelada, de Van Gogh. Isso mostra o nível de envolvimento gerado com um público que não foi até lá para ver IA, mas para ver o que a IA ajudou a construir.

Em Winds of Yawanawa, desenvolvido com uma comunidade indígena do Acre, Anadol combinou dados meteorológicos da Amazônia com obras de jovens artistas da tribo para gerar peças digitais que arrecadaram milhões de dólares. A tecnologia funciona como meio para dar escala e valor a um patrimônio cultural que dificilmente alcançaria esse espaço por outros caminhos.

O que esse tipo de trabalho aponta é uma mudança prática no processo criativo. Dados passam a ser tratados como matéria-prima enquanto o artista atua definindo o processo que gera a obra.

Para quem trabalha com vídeo, isso amplia o repertório. Em vez de pensar só em cenas, passa a fazer sentido construir sistemas visuais capazes de gerar variações, ritmo e continuidade, criando contextos mais imersivos.

Karen X. Cheng e o corpo humano como ponto de partida da IA

Karen X. Cheng é uma das referências quando o assunto é combinar filmagem tradicional com criação apoiada por IA.

O que diferencia seu trabalho não é só o domínio técnico, mas a forma como ela constrói o ponto de partida. O corpo humano vem primeiro, com movimento, expressão, presença e física capturada em câmera. A IA entra depois, expandindo o que já existe ali.

Nos vídeos que publica em suas redes, coreografia, timing e enquadramento continuam sendo decisões centrais. Ferramentas como Runway, Luma AI e ControlNet entram no processo para alterar cenário, física ou continuidade, mas sempre a partir de uma base real já definida.

Isso impacta diretamente o resultado. Não parece produção cara tentando parecer acessível, nem produção caseira tentando parecer profissional. É um tipo de vídeo que assume sua própria lógica, onde captura e geração coexistem sem competir entre si.

O trabalho da Karen aponta para um caminho mais consistente no uso de IA em vídeo. Quando a base é bem construída, a tecnologia amplia possibilidades de movimento, espaço e narrativa sem romper a coerência do que foi filmado.

Para quem trabalha com audiovisual, o ganho é prático: em vez de depender só da geração ou só da captação, passa a fazer sentido pensar em fluxos híbridos, onde a performance real sustenta o que a IA expande.

Filmes e projetos autorais que tratam IA como linguagem

Jacob Adler e o cinema que nasce da própria imagem digital

O AI Film Festival 2025, realizado no Lincoln Center, recebeu cerca de seis mil inscrições de cineastas do mundo todo. O Grand Prix foi para Total Pixel Space, de Jacob Adler.

O filme tem nove minutos, sem marca, sem orçamento declarado e sem equipe. É um ensaio visual que explora até onde as imagens digitais podem ir, alternando entre o que já é familiar e o que parece impossível, com uma narração que guia a proposta com clareza.

O que torna esse caso relevante é o contexto. Adler é um artista solo premiado em um palco que tradicionalmente abriga grandes produções, dentro de um festival cujo júri incluiu nomes como Harmony Korine, diretor de “Spring Breakers”, e Gaspar Noé, conhecido por obras como “Irreversível” e “Climax”.

Aqui, a IA não aparece como apoio de produção, mas como linguagem.

Isso muda o tipo de ambição do projeto. Não se trata de simular uma equipe ou reproduzir processos tradicionais com menos custo. O que está em jogo é a construção de um vocabulário visual que só existe porque a imagem já não depende das limitações de câmera ou orçamento.

Total Pixel Space funciona, no fim, como um ensaio sobre o próprio universo das imagens digitais, usando essa linguagem para refletir sobre seus próprios limites.

Herinarivo Rakotomanana e a construção de memória com IA

Finalista do mesmo festival, o cineasta Herinarivo Rakotomanana apresentou More Tears Than Harm, um trabalho construído a partir de memórias de infância em Madagascar combinadas com impressões do presente.

Aqui, a IA não organiza fatos, ela organiza sensação.

O filme se desenvolve como um fluxo de imagens que se aproximam da lógica da lembrança, guiadas mais por emoção do que por narrativa linear. Em vez de reconstruir eventos, Rakotomanana usa a tecnologia para acessar associações, fragmentos e imagens que carregam o que não foi verbalizado.

As referências visuais partem de ilustrações infantis tradicionais de Madagascar, o que preserva uma textura artesanal mesmo com o uso de IA. Isso dá ao trabalho uma identidade que não vem da ferramenta, mas do contexto cultural que orienta as escolhas visuais.

O trabalho aponta para um uso mais preciso desse tipo de processo. A IA deixa de operar apenas como geradora de variações e passa a ser utilizada para estruturar imagens a partir de memória, sensação e associação.

Para quem trabalha com vídeo, isso abre um caminho relevante. A possibilidade de construir imagens que não dependem apenas de continuidade narrativa, mas também de relações afetivas e simbólicas.

Adrián Suárez e a produção híbrida premiada no AI Creative Festival

Adrián Suárez começou a carreira como diretor de arte e supervisor criativo em agências de publicidade na Espanha, passando por DDB Madrid antes de migrar para a direção audiovisual. Seu trabalho em filmes publicitários e fashion films já havia sido reconhecido em festivais como TIFF, Interfilm Berlin e Berlin Fashion Film Festival.

Com The Bind, ele deu um passo diferente. O curta foi criado e conceituado inteiramente por ele, com IA como ferramenta de execução do início ao fim. O filme explora relações humanas e a ideia de que a união dentro de uma sociedade pode gerar conexões mais fortes e significativas, usando como metáfora visual o trançado de cabelo feminino.

O Grand Prix Geral do AI Creative Festival 2025 foi para esse projeto. O festival, realizado pela Human em dezembro de 2025 em São Paulo, foi a primeira premiação nacional dedicada exclusivamente à criatividade potencializada por IA e reuniu mais de mil trabalhos inscritos em 15 categorias de imagem, vídeo e áudio.

O que tornou The Bind relevante para os jurados não foi só o resultado visual, mas a clareza de processo: onde a IA atuou, onde as decisões humanas foram insubstituíveis e como essas duas camadas se articularam sem que uma comprometesse a outra. Essa transparência foi o critério central de avaliação do festival, e o que o AICF mostrou, na prática, é que produção híbrida não é uma concessão técnica, mas uma escolha criativa que exige tanto domínio de ferramenta quanto clareza sobre o que a IA não resolve sozinha.

Storytelling com impacto cultural

A produtora brasileira Feito, de Vinícius Malinoski e Guilherme Rech, desenvolveu uma coleção de livros infantis com apoio de IA que reinterpreta clássicos a partir de temas ligados à emergência climática.

Em uma das histórias, Chapeuzinho Vermelho é uma menina negra que encontra um lobo-guará ferido no cerrado, enquanto os vilões são grileiros responsáveis por queimadas ilegais. Em outra, Os Três Porquinhos exploram recursos naturais para construir suas casas. Já em Branca de Neve, protagonista e madrasta se unem para enfrentar a poluição causada pela mineração.

A IA aparece em dois momentos do processo. No desenvolvimento visual, o artista Marcelo Calenda combinou pintura digital com ferramentas generativas para construir a identidade das histórias. E na adaptação cultural, com versões pensadas para diferentes países, como China, Estados Unidos, Índia e Rússia, além do Brasil.

Todas as versões estão reunidas em uma plataforma que funciona como um hub do projeto, permitindo comparar como cada narrativa foi ajustada a contextos culturais distintos.

O ponto central não está na ferramenta, mas na decisão criativa. A mudança de conflito, que desloca o vilão clássico para questões ambientais, vem antes da tecnologia. A IA viabiliza a escala dessa ideia, permitindo múltiplas versões sem perder consistência.

O resultado mantém textura, imperfeição e identidade, mesmo com o uso de IA no processo.

Conclusão: o que esses casos revelam sobre criar com IA

Quando colocados lado a lado, esses projetos mostram alguns padrões difíceis de ignorar.

Nenhum deles nasce da pergunta "o que dá pra fazer com essa ferramenta?". Eles partem de uma visão, seja narrativa, editorial ou conceitual, e usam a IA como meio para viabilizar ou expandir essa ideia.

Também existe uma camada de decisão que não vem da tecnologia. Transformar dados em um sistema que faça sentido, definir regras que sustentem consistência, estabelecer limites claros e construir um conceito capaz de organizar tudo isso. A IA executa, amplia e acelera, mas alguém sempre define o que vale ser feito e valida os resultados.

Outro ponto em comum é a ambição de cada entrega. São projetos que lidam com problemas concretos, como mapear uma floresta inteira, manter consistência criativa em diferentes mercados, transformar dados em experiência física ou viabilizar cinema autoral sem estrutura de estúdio.

Esses casos não entregam fórmulas prontas, mas um modo de pensar que se traduz em soluções criativas reais.  A IA já está em um nível de maturidade capaz de sustentar trabalhos ambiciosos e relevantes e o que esses projetos mostram, na prática, é que a tecnologia expande a produção e também amplia o limite do que você consegue imaginar, desde que você tenha algo a dizer antes de usá-la.

Se quiser dar o próximo passo nessa direção, vale ver como bons diretores de arte estão expandindo o repertório criativo com IA.

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