
24 de fev. de 2026
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Staff

A geração de imagem com IA entrou em um ciclo de evolução acelerada. A cada semana surge um novo modelo ou atualização, acompanhada de testes comparativos, threads empolgadas nas redes e postagens de resultados que chamam atenção logo de cara.
Esse entusiasmo inicial, no entanto, costuma desaparecer da rotina criativa em pouco tempo. Não porque os lançamentos sejam ruins, mas porque o ganho real nem sempre compensa a fricção de integrar mais uma ferramenta a um fluxo de trabalho que já funciona.
Hoje, quando bem utilizados, modelos consolidados entregam impacto visual, realismo convincente e velocidade suficiente para atender grande parte do mercado. A régua subiu e a exigência acompanhou. Qualquer novidade precisa justificar sua adoção de forma prática.
O Recraft V4, lançado em fevereiro de 2026, tenta se diferenciar dos concorrentes por um caminho específico. A proposta não é apenas gerar imagens bonitas, mas criar imagens que funcionem como design. Segundo a empresa, designers participaram ativamente do treinamento do modelo e não apenas validaram o resultado final.
O objetivo principal da atualização é resolver pontos que ainda desafiam outros modelos: tipografia precisa dentro da imagem, vetores editáveis que facilitam ajustes e controle visual que mantém a consistência de marca em diferentes peças.
Mas o diferencial técnico por si só não garante que a ferramenta vá realmente entrar no dia a dia. As perguntas que interessam a profissionais, sejam autônomos ou equipes estruturadas, são: será que o resultado é consistente e confiável o suficiente para justificar o uso diário no workflow de quem já utiliza modelos como Nano Banana Pro ou Seedream? O Recraft V4 se encaixa no fluxo criativo sem atrito, entrega ganho real de produtividade, ajuda a manter a identidade visual ou só fica bonito em testes?
O ponto agora é separar discurso de aplicação real e entender onde o Recraft V4 agrega de fato, onde facilita a rotina criativa e onde ainda precisa provar seu valor no mercado profissional.
Por que ter sido criado com designers é um diferencial
Quando o Recraft diz que o V4 foi construído com designers, a palavra-chave da frase não é “designers”. É “com”.
Em muitos casos, designers entram no processo depois que o modelo já está treinado, avaliando resultados, testando interface e ajustando usabilidade. Isso é relevante, mas não altera o núcleo do modelo. O que deve mudar aqui não é só a interface, mas o critério interno que orienta o que o modelo considera uma boa decisão visual.
No V4, isso aparece no que a empresa chama de design taste, um gosto de design incorporado ao modelo. É uma orientação que promete atravessar o processo de geração: como o peso visual é distribuído, como o espaço é aplicado, como tipografia e símbolo se relacionam, como a imagem já deve nascer considerando que fará parte de um projeto.
Para quem conhece o trabalho de Josef Müller-Brockmann, que defendeu uma comunicação visual orientada por clareza, hierarquia tipográfica e sistemas racionais de organização, ou de Alexandre Wollner, que consolidou no Brasil uma cultura de design baseada em método, coerência e construção estrutural de identidade, a lógica não é nova. A novidade acontece em outra camada: essa forma de pensar o design passa a integrar o próprio treinamento de um modelo de geração por IA.
O resultado esperado são imagens que apresentam coerência interna. Elas não apenas devem parecer certas à primeira vista, mas se sustentar dentro de sistemas maiores. Quando uma IA entende design, o que ela produz não é apenas agradável aos olhos, é utilizável no contexto profissional real.
Onde o Recraft V4 está disponível
O V4 está integrado em um ecossistema amplo de ferramentas, o que facilita o acesso dependendo de como você já trabalha.
API: totalmente acessível para desenvolvedores, com cobrança por imagem gerada. Para equipes que querem integrar geração de imagem diretamente em plataformas ou fluxos internos, é o caminho mais direto.
Freepik: integrado nativamente no gerador de imagens da plataforma, com acesso à versão Pro via créditos Premium+. Para quem já usa o Freepik no fluxo de trabalho, é o acesso mais direto.
ComfyUI: disponível através do nó oficial ComfyUI-RecraftAI. Para usuários técnicos que constroem fluxos de automação, essa integração permite usar o V4 dentro de fluxos de trabalho mais complexos, combinado com outras ferramentas e modelos.
Higgsfield: embora o Higgsfield seja uma plataforma mais voltada para vídeo, o Recraft é frequentemente combinado com ela para criar os quadros-chave que serão animados. É um fluxo de trabalho image-to-video que aproveita a qualidade de composição do V4 e a animação do Higgsfield.
Do Recraft V3 ao V4: uma reconstrução, não uma atualização
O Recraft V3 já tinha uma reputação construída, especialmente entre designers que precisavam de tipografia mais precisa do que outros modelos ofereciam. Era uma ferramenta sólida. O V4 se apresenta como uma reconstrução completa, apoiada em uma nova lógica estrutural.
As diferenças não aparecem só em performance. Elas começam a se revelar na forma como o resultado é construído a partir de 4 bases fundamentais:
1. Composição com consciência de layout
O V4 gera imagens com espaço negativo pensado desde o início. Em vez de produzir uma imagem que ocupa todo o quadro e depois obriga você a adaptar layout, recortar e abrir respiro para o texto, o modelo já considera que aquela imagem fará parte de algo maior.

2. Realismo de materiais e iluminação
O V4 promete um avanço claro no realismo das imagens geradas. A luz e a materialidade aparecem de forma mais convincente do que nas versões anteriores, aproximando o resultado do que seria esperado em uso comercial. O salto em relação ao V3 é perceptível, especialmente em superfícies que exigem leitura de textura e não apenas de cor.
Ainda assim, o modelo nem sempre acerta: contextos complexos ou combinações de iluminação específicas podem gerar inconsistências. Quando funciona, o resultado deixa para trás aquela aparência genérica e plana, oferecendo imagens mais consistentes e visualmente confiáveis.

3. Postura “anti” banco de imagens
Banco de imagens carrega um imaginário conhecido por quem trabalha com comunicação visual. Existe uma estética reconhecível ali: segura, previsível, sem ponto de vista. O V4 foi calibrado na direção oposta.
4. Versões Pro com resolução nativa de 2048x2048
As versões Pro do V4 atingem 2048x2048 de resolução nativa, com anatomia mais consistente, mesmo quando os detalhes são ampliados.

Vale lembrar que o V3 continua disponível e ainda faz sentido em cenários específicos, como fluxos já consolidados que dependem de uma assinatura visual estável ou projetos que pedem exatamente o tipo de controle artístico que ele oferece. Para novos projetos, o V4 tende a ser o ponto de partida mais lógico a partir de agora.
Leia também: Edição pontual em imagens de IA: como corrigir aquele detalhe sem precisar gerar tudo do zero
Tipografia na imagem com IA usando o Recraft V4
Durante muito tempo, esse foi um dos pontos de atenção da geração de imagem com IA, entregando formas imprecisas e ortografia instável justamente quando era necessário comunicar algo com clareza.
O Recraft V4 tenta enfrentar essa limitação na raiz do problema. Em vez de apenas imitar a aparência do texto, o modelo demonstra compreender princípios básicos de tipografia: a relação entre maiúsculas e minúsculas, a espessura dos traços, a proporção entre letras mais estreitas e mais abertas.

O V4 oferece um estilo dedicado de Typographic Logo, pensado para explorar propostas criativas sem perder legibilidade e mantendo equilíbrio visual com mais consistência do que víamos antes.
É possível testar múltiplas direções tipográficas em uma única sessão, avaliar equilíbrio, calibrar peso visual e só então levar a direção mais promissora para o refinamento final. O que antes eram dois momentos separados, de explorar e executar, pode começar a acontecer no mesmo lugar.
Isso também facilita a aprovação do cliente. Uma composição que já integra texto e imagem é mais fácil de avaliar do que um layout com texto provisório. O feedback acontece sobre a peça real, não sobre uma promessa de como ela vai ficar depois.
Leia também: O futuro da composição visual: IA como ferramenta, humano como critério
Vetores nativos em imagens com IA no Recraft V4

O Recraft V4 propõe dois caminhos:
Geração nativa de vetores
No modo Text-to-Vector, a imagem já nasce como SVG. Ao abrir o arquivo no Illustrator, ele já chega utilizável e, na prática, isso tende a gerar caminhos mais limpos, menos pontos desnecessários e uma organização mais lógica para edição. A promessa é reduzir aquela etapa técnica de limpeza antes de começar a parte criativa.

Vetorização inteligente de imagens existentes
O segundo caminho é a ferramenta de vetorização por IA. Você envia uma imagem comum em PNG ou JPG e o modelo converte para SVG. A diferença em relação à conversão automática tradicional está na forma como bordas e silhuetas são interpretadas: contornos mais coerentes e maior preservação da intenção visual do original.
Para quem já precisou recriar logotipo entregue só em JPEG, transformar referência de cliente em arquivo editável ou trabalhar com material que chega em formato inadequado, essa abordagem promete reduzir significativamente o retrabalho manual.
Como a IA muda o uso de vetores na rotina criativa
A combinação de geração nativa e vetorização por IA sugere um caminho interessante: integrar a inteligência artificial ao fluxo vetorial e não manter apenas como etapa isolada de criação.
Isso abre espaço para fluxos híbridos mais fluidos, em que a IA pode acelerar exploração e estrutura inicial, enquanto cada escolha de forma, cor e proporção recebe a curadoria de quem entende do assunto.
Leia também: Branding na era da IA: como identidade visual, estratégia e tecnologia constroem valor de marca
O impacto do controle de marca em imagens com IA para profissionais criativos
O vermelho da Coca-Cola não é “um vermelho qualquer” e o azul da Ambev não é apenas “um azul mais escuro”, são cores definidas em manuais de identidade visual, aprovadas e que precisam ser respeitadas em cada peça produzida, seja um outdoor de 10 metros ou um story de 24 horas para o Instagram.
A maioria dos modelos de geração de imagem com IA não oferece esse nível de controle. Você descreve uma cor, o modelo interpreta, e o resultado é algo aproximado. Para exploração criativa, funciona. Para produção de marca, não.
O Recraft V4 permite que o designer informe cores exatas usando códigos HEX, um padrão digital que representa cada cor de forma precisa. Isso significa que é possível gerar ativos para campanhas mantendo a paleta oficial da marca sem precisar corrigir cores depois.
Como o Recraft V4 se compara ao Midjourney, Seedance e Nano Banana
Comparar modelos de geração de imagem com IA exige olhar com cuidado para o contexto de uso. Nenhum modelo resolve tudo e cada um tem pontos fortes diferentes. Entender isso ajuda o criativo a escolher a ferramenta certa para cada etapa do seu trabalho.
Recraft V4 vs. Midjourney
O Midjourney é a referência para imagens com atmosfera mais cinematográfica, efeitos de luz e composição que remetem a produções fotográficas de alto nível. É ótimo para explorar estética, criar moodboards e buscar inspiração visual.



Recraft V4 vs. Seedream
O Seedream 5.0 se destaca quando o objetivo é gerar imagens com alto grau de realismo, resolução 4K e atenção aos detalhes que simulam fotografias profissionais.



Recraft V4 vs. Nano Banana Pro
O Nano Banana tem um diferencial claro que o V4 não replica com a mesma fluidez: a edição conversacional. Dá para ajustar elementos de uma imagem via chat, fazer refinamentos iterativos e combinar múltiplos assets com facilidade. Para prototipagem rápida e composição de cenas, ele é muito prático.



Como o Recraft V4 lida com texturas, granulação, realismo e detalhes
Para o profissional criativo de imagem com IA, entender como uma ferramenta se comporta na prática faz diferença entre escolher certo ou perder tempo com resultados que não atendem ao projeto.
Materiais e superfícies
O V4 se destaca na renderização de materiais com comportamento de luz complexo. Metais refletem, tecidos mostram textura e caimento, couro revela variações de brilho nas dobras e vidro combina transparência e reflexo. Comparado ao V3, o salto em consistência e fidelidade é perceptível.

Granulação e textura
O modelo permite controlar a granulação, indo do digital a um efeito mais analógico, com textura de filme. Para trabalhos que buscam diferentes estéticas, isso oferece possibilidades interessantes.

Realismo e iluminação
A iluminação gerada pelo V4 segue uma lógica coerente com o ambiente, trazendo resultados que funcionam com diferentes abordagens estéticas e realistas.

Tipografia e vetores
Como já exploramos antes, tipografia e geração nativa de SVG são os campos em que o V4 se diferencia mais claramente. O modelo entende a anatomia das letras e entrega arquivos vetoriais prontos para edição, um recurso que se destaca entre outros modelos do mercado.

O que ainda não funciona bem no Recraft V4: limitações que você precisa conhecer
Ser transparente sobre limitações é parte do trabalho. Nenhuma ferramenta é perfeita, e saber onde ela ainda deixa a desejar é tão importante quanto conhecer seus pontos fortes.
Anatomia humana e cenas complexas
Em cenas com múltiplos personagens, poses dinâmicas ou interações físicas complexas, o V4 ainda pode apresentar inconsistências. Mãos, proporções, sombras e detalhes faciais às vezes saem estranhos, e a percepção de profundidade nem sempre é totalmente convincente. Para campanhas em que personagens são protagonistas, especialmente em poses elaboradas, é preciso revisar e testar com atenção.
Edição conversacional
Para refinamentos iterativos via inpainting por chat, o Nano Banana Pro ainda oferece uma experiência mais direta. O V4 se destaca mais na criação de materiais novos do zero do que na edição pontual de imagens já geradas.
Instruções em português para layouts complexos
O modelo suporta Unicode, incluindo português, mas em layouts tipográficos complexos com múltiplos elementos de texto, os melhores resultados ainda vêm de instruções em inglês. No dia a dia, isso não costuma ser um problema, mas para projetos que exigem tipografia em português muito específica dentro de composições complexas, é um ponto de atenção.
Conhecer essas limitações ajuda o profissional a usar o V4 onde ele é mais forte e combinar com outras ferramentas quando necessário. Não é uma fraqueza: é parte de como o trabalho criativo funciona. Ter um conjunto de ferramentas bem pensado sempre será mais eficaz do que depender de apenas uma.
Conclusão: o Recraft V4 realmente faz diferença na rotina criativa?
Há alguns anos, o debate sobre IA e criação girava muito em torno de volume, considerando o quanto se podia produzir em cada modelo. Esse debate ainda existe, mas hoje ele ficou menor. Com opções como o Recraft V4, o foco não é apenas gerar muitas imagens, mas criar soluções que funcionem dentro de um fluxo profissional já estabelecido.
O V4 não surge para substituir todos os modelos de IA, mas disputa um território voltado para tarefas específicas. Acelera etapas e ajuda a reduzir retrabalho em tarefas que, em outros modelos, podem exigir ajustes adicionais ou manuais.
Ainda assim, o V4 sozinho também não resolve tudo: tanto em fluxos tradicionais quanto em fluxos de IA, ele depende de outras soluções para refinamentos e complementos. Funciona melhor como parte de um fluxo híbrido, sem sustentar a promessa de um sistema unificado.
E aqui está o ponto: um modelo treinado para pensar como designer não entrega resultado de designer automaticamente. Ele oferece um ponto de partida mais inteligente do que modelos que não têm esse cuidado na base.
O futuro do V4 deve caminhar para uma integração mais profunda com o ecossistema criativo de IA, se consolidando menos como ferramenta independente e mais como camada especializada dentro de fluxos reais.
Se a promessa de “pensar como designer” evoluir na prática, ele não será apenas mais um modelo para escolher, mas terá potencial de se tornar uma ferramenta que faz diferença na rotina criativa, combinando velocidade, controle fino e qualidade para profissionais que souberem explorar seus recursos.
E se você quer ir além e deixar de só seguir tendências para começar a liderar ideias com IA, confira também: “Como bons diretores de arte estão expandindo o repertório criativo com IA”.






