
29 de ago. de 2025
Nando
CEO | FOUNDER
De tempos em tempos, a mesma pergunta volta a rondar o mercado criativo: a inteligência artificial vai substituir os designers? A resposta é simples: não. Mas isso não significa que o design continuará igual.
A IA já transformou a forma como criamos imagens, vídeos e protótipos. Ela acelera processos, amplia possibilidades e redefine etapas de trabalho. Mas, no fim das contas, continua sendo o olhar humano que dá sentido, consistência e impacto a cada entrega.
Neste artigo, vamos explorar essa relação em profundidade, do mito da substituição à matemática por trás dos custos, passando pelo papel indispensável da pós-produção e chegando às novas oportunidades de mercado que surgem quando criativo e IA atuam juntos.
O mito da substituição
A inteligência artificial já é parte ativa dos processos criativos. Plataformas como Midjourney, Visual Electric e Veo3 permitem gerar imagens e vídeos em minutos, algo que antes exigia dias de trabalho entre brainstorming, captura e edição.
Só que velocidade não significa profundidade. Muitas vezes, a escolha mais certeira continua sendo a mais tradicional: abrir a câmera e fotografar.
Um bom exemplo vem do mercado de moda. Marcas como Balenciaga e Gucci já experimentaram campanhas com IA, mas continuam investindo em grandes produções fotográficas. Por quê? Porque a IA não substitui o valor simbólico e emocional da produção real. Continuar investindo em campanhas fotográficas é uma forma de manter sua presença cultural e visual com profundidade.
“A IA não substitui a intuição. Ela a amplifica. As máquinas oferecem velocidade, memória e reconhecimento de padrões. Os humanos trazem emoção, contradição e aquela centelha estranha que chamamos de criatividade. Juntos, eles formam uma relação simbiótica.”
— Braz De Pina, designer da Microsoft
Ou seja: a IA amplia e dá escala à criatividade, mas não a gera sozinha. A decisão de abrir a câmera, usar um set real ou partir para a IA continua sendo um ato de direção criativa, feito por quem entende a narrativa e a estética do projeto.
E como já destacou a Fast Company, a IA não vai substituir você, mas alguém que sabe usá-la, pode. Segundo o artigo, até 2030 a tecnologia deve deslocar 92 milhões de empregos, mas criar 170 milhões novos. Ou seja, o risco não é a máquina em si, mas ficar parado enquanto outros aprendem a orquestrar fluxos entre criatividade humana e eficiência das IAs.
O valor do profissional criativo
Um design poderoso não nasce apenas de estética polida. Ele nasce da mistura entre intuição, emoção e contexto cultural. É exatamente esse o ponto que Braz De Pina reforça ao comparar IA com câmeras fotográficas: não é a tecnologia que faz a foto, mas o olhar de quem a usa.
É por isso que profissionais criativos continuam indispensáveis. Eles sabem quando usar um detalhe contraditório, uma imperfeição ou uma ruptura estética para gerar impacto. E isso está além da lógica da máquina.
Um exemplo emblemático é a campanha da Nike em homenagem a Serena Williams, desenvolvida com a agência AKQA. No ano de sua aposentadoria, a marca decidiu recriar um confronto entre duas versões de Serena: a de 1999, quando conquistou seu primeiro Grand Slam, e a de 2017, já consolidada como lenda.
Usando machine learning e a técnica vid2player da Universidade de Stanford, foi possível simular como cada versão da atleta reagiria: escolhas de jogada, tempo de recuperação, agilidade e estratégia.
O resultado foi um confronto épico entre duas “Serenas”, recriado a partir de dados históricos, transmitido ao vivo no YouTube para milhões de pessoas.
Mais do que uma experiência de dados, foi uma narrativa visual inédita, capaz de mostrar ao mundo não apenas o talento de Serena, mas sua constante evolução.
O impacto não veio da tecnologia sozinha, mas da visão criativa que decidiu usá-la como forma de contar uma história.
O projeto rendeu à Nike e à AKQA diversos prêmios internacionais, incluindo Grand Prix em Digital Craft e ouros em Artificial Intelligence, Branded Content e Athlete Storytelling.
Esse case é prova de que IA não substitui o criador: ela se torna parte da sua paleta de ferramentas para contar histórias de forma mais poderosa.
A matemática por trás da IA
Quase todas as plataformas criativas de ponta, como Midjourney, Runway, Magnific, Krea, Veo3 e Visual Electric, são cobradas em dólar. Para criativos no Brasil, esse detalhe faz toda a diferença.
Não é incomum ver profissionais se empolgarem e assinarem múltiplas ferramentas ao mesmo tempo, mas o acúmulo de mensalidades pode corroer margens de lucro rapidamente. O que parecia ganho de produtividade pode virar prejuízo se não houver planejamento.
Aqui, o conselho do próprio Braz De Pina serve de alerta: uma ferramenta de IA só é verdadeiramente “designer-friendly” quando desaparece no fluxo criativo. Em outras palavras, ela deve acelerar, simplificar e não atrapalhar.
Se a plataforma é cara, complexa e ainda exige retrabalho constante, talvez não valha o investimento. Por isso, cada criativo precisa colocar na ponta do lápis:
Qual parte do processo realmente se beneficia da IA?
O cliente está disposto a pagar pela sofisticação que a ferramenta agrega?
Um bom paralelo é pensar na compra de equipamentos de fotografia. Nem toda campanha exige uma câmera de cinema de última geração. Às vezes, o que resolve é um set menor, bem iluminado e dirigido com inteligência. O mesmo vale para IA: não é sobre ter todas as assinaturas, mas escolher as que realmente potencializam o seu trabalho.
👉 Leia também: As ferramentas favoritas da Human para criar imagens, vídeos e fazer upscale com IA
No fim, o verdadeiro diferencial não está em quantas ferramentas você paga, mas em como você consegue transformar esse investimento em resultado criativo e retorno financeiro.
Por que a pós-produção segue indispensável
Mesmo quando a IA entrega resultados impressionantes de primeira, é a pós-produção que transforma uma imagem ou vídeo em algo realmente profissional.
Esse é o momento em que o olhar humano define se o trabalho está pronto para ir para a rua. Afinal, nenhuma ferramenta substitui etapas cruciais como:
Correção de cor e luz para alinhar com a identidade da marca.
Ajustes de proporção e anatomia, já que a IA ainda falha em detalhes.
Tratamento fino de textura, especialmente em pele, tecidos e produtos.
Adaptação para múltiplos formatos, do feed vertical ao painel de outdoor.
Integração de identidade visual (tipografia, grafismos, logos, motion).
Um exemplo prático vem do nosso próprio estúdio: no vídeo abaixo, testamos o Nano-Banana, uma nova ferramenta de IA que surgiu de forma enigmática. O destaque está justamente na etapa de pós-produção, essencial para garantir qualidade e consistência no resultado final.
No mercado publicitário, o raciocínio é o mesmo. Campanhas geradas com IA raramente vão direto para a mídia. Elas passam por diretores de arte e equipes de finalização, que aplicam o acabamento estético e a coerência visual. É isso que garante que a peça esteja dentro dos padrões de qualidade que uma marca global exige.
Esse processo se assemelha ao que já acontece no cinema: mesmo com câmeras de última geração, nenhum filme é lançado sem color grading, edição e mixagem de som. A IA pode acelerar a base, mas o acabamento segue sendo território humano.
Por isso, a pós-produção não é apenas uma etapa final, é o ponto onde o trabalho ganha consistência, emoção e assinatura criativa. Sem ela, a entrega pode soar genérica, superficial ou até comprometer a reputação da marca.
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Conclusão
Então, afinal: a IA vai substituir os designers? Definitivamente não.
O que ela está fazendo é redefinir o papel do criativo: de executor a estrategista, de operador de ferramentas a diretor de processos híbridos entre humano e máquina.
Como defende Braz De Pina, da Microsoft, a IA não substitui a intuição, ela a amplifica. E casos como o da Nike com Serena Williams mostram como tecnologia e storytelling podem se fundir para criar experiências que antes pareciam impossíveis.
O futuro do design é híbrido: câmera quando faz sentido, IA quando acelera, pós-produção sempre.
Quem souber equilibrar esses elementos não só vai se manter relevante, mas vai liderar a transformação criativa que já está acontecendo.